EFEPablo Ramón Ochoa, Buenos Aires

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, se despediu do cargo neste sábado em um evento que reuniu milhares de simpatizantes do governo na Praça de Maio, um dos principais pontos turísticos de Buenos Aires.

Derrotado na eleição de outubro em primeiro turno pelo peronista Alberto Fernández, que toma posse na próxima terça-feira, Macri, que deu exemplo na condução da transição de poder, fez um discurso firme e pediu para que os argentinos não deixem que o país "seja roubado".

"Temos que cuidar da nossa querida Argentina para que não a roubem, não a maltratem, não a enganem e não se descuidem dela", afirmou Macri, em uma referência velada à ex-presidente Cristina Kirchner, acusada em uma série de casos de corrrupção, que foi eleita como vice de Fernández.

OPOSIÇÃO CONSTRUTIVA

Macri deixou a Casa Rosada, sede do governo argentino, e, ao lado da primeira-dama, Juliana Awada, e seu candidato à vice, Miguel Ángel Pichetto, foi até a Praça de Maio para ficar perto de seus eleitores, sendo carregado em parte do trajeto.

"Somos muitos e estamos cada vez mais juntos para defender as coisas que conseguimos, defender a Argentina se alguém quiser abusar dela", afirmou, emocionado, o presidente que deixa o poder.

Apesar do tom mais crítico, Macri afirmou que fará uma oposição construtiva ao governo de Fernández. Aos seus simpatizantes, o quase ex-presidente disse que o Mudemos, coalizão liderada por ele, representa uma "alternativa saudável de poder".

"Quero dizer ao presidente eleito que ele pode confiar que, depois de muito tempo, vai encontrar uma oposição construtiva e não destrutiva. Defenderemos a democracia, a qualidade institucional e as liberdades dos cidadãos, assim como uma justiça independente", prometeu Macri.

CRISE ECONÔMICA

Macri deixa o poder depois de quatro anos e entrega o país em uma grave crise econômica a Fernández, com alta inflação e forte desvalorização do peso em relação ao dólar. O Observatório da Dívida Social da Universidade Católica da Argentina calcula que 40,8% da população vive em condições de pobreza.

Na última quinta-feira, Macri fez um balanço de seu governo e admitiu que o resultado das reformas econômicas promovidas por ele não "chegaram a tempo" e lamentou que o país não tenha conseguido se recuperar da crise que eclodiu em abril de 2018.

"Lamento não ter podido oferecer melhores resultados nesses anos. Batemos na mesma pedra que afeta há tantas décadas a vida do argentino: o dólar. Com cada aumento do dólar veio depois da inflação e o crescimento da pobreza", disse Macri.

"Não vou embora satisfeito com o quanto a economia cresceu no meu mandato e com os resultados da nossa luta contra a inflação e a pobreza", completou na avaliação o presidente.

Durante o governo de Macri a Argentina precisou recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para pedir um empréstimo de quase US$ 57 bilhões, o maior da história da entidade, dos quais US$ 44 bilhões já foram repassados ao país.

Ontem, Fernández anunciou sua equipe de governo e terá dois nomes para tentar tirar o país da crise. Martín Guzmán assume o Ministério da Economia, e Matías Kulfas comandará a pasta de Desenvolvimento Produtivo.

O novo governo também organizará um evento na Praça de Maio na próxima terça-feira para celebrar a posse de Fernández.