EFEWanda Rudich, Viena

A inesperada morte de Yukiya Amano, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), gera ainda mais incerteza em torno do conflito sobre o programa nuclear do Irã, em meio a uma escalada de tensão entre Washington e Teerã que ameaça romper o histórico acordo de 2015.

A AIEA anunciou nesta segunda-feira a morte do diplomata japonês, aos 72 anos, que estava à frente desta agência da ONU desde 2009.

Amano morreu na última quinta-feira, mas sua família pediu que a notícia não fosse divulgada até o sepultamento, que aconteceu hoje, informou à Agência Efe o escritório de imprensa da AIEA.

Embora fosse público que Amano sofria há um ano de uma doença cuja natureza não foi divulgada oficialmente, a notícia de sua morte foi inesperada.

De fato, na semana passada, fontes diplomáticas disseram à Efe que Amano iria anunciar hoje que renunciaria em março do ano que vem, a 20 meses do fim do seu terceiro mandato.

A razão dessa saída antecipada era, claramente, a piora da sua saúde, que o manteve afastado durante meses do trabalho e que inclusive o impediu de participar há duas semanas em uma sessão extraordinária da Junta de Governadores, o órgão executivo da AIEA, sobre a crise do Irã.

A AIEA é o órgão encarregado de vigiar o programa nuclear iraniano e de verificar que o país cumpre os compromissos que adquiriu em 2015 por meio do acordo assinado com Estados Unidos, França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia.

Agora será preciso esperar para saber o impacto da morte de Amano em um momento em que o Irã acelerou seu programa atômico e descumpriu o acordo de 2015, em resposta às sanções dos EUA, que no ano passado abandonou o pacto unilateralmente.

"O secretariado (da AIEA) trabalhará com os Estados-membros para que o impacto desta infeliz situação seja limitado ao mínimo", disse hoje à Efe um porta-voz do órgão, que insistiu que há um contato contínuo com os países da AIEA.

Mary Alice Hayward, uma das diretoras adjuntas da agência, assumirá de forma interina sua direção.

O substituto de Amano deve ser eleito pela Junta de Governadores, cuja próxima reunião está prevista para 9 de setembro. A nomeação deve ser depois ratificada pela Assembleia Geral da ONU, que será realizada entre os dias 16 e 20 do mesmo mês.

É possível que seja convocada antes uma reunião extraordinária da Junta para acelerar o processo de escolha do novo diretor.

Segundo fontes diplomáticas, entre os possíveis candidatos está Rafael Grossi, atual embaixador da Argentina em Viena e que entre 2010 e 2013 foi diretor-adjunto da AIEA para Assuntos Políticos; o romeno Cornel Feruta, um colaborador próximo de Amano, e Lassina Zerbo, o secretário-executivo da Organização para a Proibição Total de Testes Nucleares.

A AIEA foi fundamental nas negociações que, impulsionadas pelo ex-presidente dos EUA, Barack Obama, acabaram com mais de uma década de conflito em torno do programa nuclear que o Irã desenvolveu durante anos de forma clandestina, gerando o temor quanto a seu objetivo ser a fabricação de armas atômicas.

O acordo assinado em 2015 em Viena sob o nome de Plano de Ação Conjunta (JCPOA, na sigla em inglês) limitava a magnitude e o alcance das atividades nucleares iranianas para garantir que não fossem desenvolvidas armas atômicas em curto prazo.

Em troca, as sanções internacionais à economia iraniana seriam retiradas.

Com exceção dos EUA, que voltaram a impor severas sanções ao Irã, os demais signatários insistem na vontade de mantê-lo, apesar dos recentes descumprimentos do Irã.

Os inspetores da AIEA confirmaram neste mês que Teerã superou tanto o limite de 300 quilos de urânio enriquecido armazenado, como o enriquecimento a 3,67% desse combustível que são permitidos no acordo.

A União Europeia (UE) ressaltou que estas medidas ainda são "reversíveis", por isso pediu ao Irã que recue.

"É preocupante o aumento das tensões em torno do problema nuclear iraniano", disse Amano em junho durante a última Junta de Governadores da qual participou.

UE, EUA e Irã lamentaram hoje a morte do diplomata japonês, que chegou à agencia após uma longa trajetória na luta contra a proliferação de armas nucleares.