EFEDavid Blanco Bonilla. Lima

Em meio a incertezas sobre sua futura gestão, temores alimentados por uma campanha adversária que o tachou de "comunista", Pedro Castillo, que tomará posse como presidente do Peru na quarta-feira, enfrenta o desafio de dissipar as preocupações em um país polarizado e atingido pela crise da pandemia de covid-19.

Após um longo e exaustivo segundo turno das eleições de 6 de junho contra Keiko Fujimori, Castillo assumirá a missão de passar do discurso de campanha para a administração de um país complexo e com uma oposição política que o desafiará desde o início do mandato.

Castillo venceu as eleições com apenas 44 mil votos de vantagem sobre Keiko - que denunciou uma suposta "fraude", mas não apresentou provas concretas - e só terá a minoria em um Congresso dividido e em grande parte constituído por grupos de direita.

"O grande desafio político será um Congresso onde ele não terá maioria e que, claramente, não está apenas em oposição. Muitos acreditam que ele é um presidente ilegítimo", disse a analista Gelin Espinoza à Agência Efe.

Neste cenário, o cientista político Sandro Venturo disse que o presidente terá de "tomar decisões cruciais sobre o perfil político do seu governo", que se baseia em uma proposta de esquerda que oscila entre o centro conservador e o marxismo ortodoxo da ideologia do seu partido, o Peru Livre.

"Estamos em um cenário de grande fragmentação política. A direita está dividida, a esquerda está dividida, apesar do entusiasmo. Em geral, existe uma grande lacuna entre o Estado e a sociedade", disse Venturo.

OS DESAFIOS DO PODER.

Após a polarização que o Peru enfrentou nos últimos meses, com uma campanha que acusou Castillo de ser "comunista" e "chavista", principalmente por ter proposto a convocação de uma Assembleia Constituinte e a mudança do sistema econômico, alguns analistas acreditam que o Congresso pode muito bem tentar retirá-lo do cargo, como aconteceu em 2020, com Martín Vizcarra.

Outro obstáculo é a forte oposição que as elites demonstraram à sua eleição e as exigências dos políticos e empresários para que Castillo estabeleça pactos que assegurem a continuidade do sistema econômico.

"O poder econômico também buscará colocar uma série de obstáculos no caminho de Castillo para que ele ceda, e este é outro grande desafio que ele enfrenta", pontuou Espinoza.

Além disso, Venturo ressaltou que o governante enfrentará o desafio individual de firmar a sua liderança política, algo que disse não ter mostrado durante a campanha eleitoral, quando "não conseguiu reunir uma boa equipe técnica para apresentar propostas claras da sua própria posição política de maneira oportuna".

"Se ele não pôde fazer uma boa campanha, a questão legítima é: poderá ele liderar um bom governo?", questionou, antes de afirmar que Castillo ganhou as eleições "apesar de ele mesmo e graças às fraquezas de Keiko", que tem grande rejeição.

PANDEMIA E ECONOMIA.

Além de esclarecer dúvidas sobre a sua ação política, lidar com uma oposição agressiva e definir os principais eixos da sua administração, Castillo ainda não deixou claro como lidará com a crise sanitária e econômica causada pela pandemia de covid-19.

Com mais de 2 milhões de casos e quase 200 mil mortes no Peru, a pandemia expôs um sistema de saúde deficiente e mal organizado e também atingiu uma economia que se manteve estável até 2019, mas em apenas um ano caiu quase 11%, aumentando a pobreza e a desigualdade.

"Pedro Castillo agora está sendo confrontado com a forma de retomar a economia do país, buscando também o que prometeu tanto na sua campanha: uma economia popular. Penso que é um desafio importante encontrar esse equilíbrio", acrescentou Espinoza.

A atual gestão transitória, presidida por Francisco Sagasti durante oito meses, também o deixa com o grande desafio de terminar o processo de vacinação contra a covid-19, que ainda pode desencadear uma terceira onda no país, de acordo com muitos especialistas.

O FUTURO IMEDIATO.

O que acontecerá no Peru a partir de 28 de julho ainda é "uma incógnita" para Venturo, para quem tudo dependerá, em grande parte, dos "gestos" que Castillo fará para permitir que esta incerteza "seja substituída pela governabilidade".

O cientista político também destacou que existe "um simbolismo muito forte" no fato de Castillo, um professor de escola rural e do campo, "receber o mandato popular" no mesmo dia em que o país celebrará 200 anos de independência.

Espinoza concordou com o forte simbolismo desta posse e recordou que Castillo prometeu "colocar um fim aos privilégios de alguns e propõe um país de mais oportunidades", no qual todos os peruanos tenham "os mesmos direitos".