EFESebastián Meresman, Buenos Aires

Endeusado, amado, venerado, admirado, respeitado, mas também julgado, criticado e questionado: tudo isso e muito mais foi Diego Armando Maradona, que morreu nesta quarta-feira, em Buenos Aires, após sofrer uma parada cardíaca.

Muito mais do que o ex-jogador e o técnico do Gimnasia La Plata, faleceu o homem que se tornou um deus para a Argentina e um ídolo em todo o planeta, muito graças ao futebol, mas também pela personalidade forte e pelos posicionamentos políticos.

Filho de Dalma Salvadora Franco e Diego Maradona, o eterno camisa 10 nasceu em 30 de outubro de 1960. Era o quinto de oito filhos do casal e o primeiro do sexo masculino. Cresceu em Villa Fiorito, umas das regiões mais carentes da província de Buenos Aires.

"Quando a comida chegava, minha mãe dizia que estava com dor de barriga, porque queria que comêssemos, mas não havia o suficiente para todos. Quando tinha 13 anos, percebi que minha velha senhora nunca tinha sofrido do estômago", contou Maradona.

Em 1969, ele passou a jogar pelas categorias de base do Argentinos Juniors, sempre arrasando os adversários que enfrentava. Logo chamou a atenção de todos no clube e no futebol argentino, de maneira geral. Com ele, veio o apelido que o marcou 'El Pibe', que significa 'O Garoto', em tradução livre.

A estreia como profissional aconteceu já em 20 de outubro de 1976, quando tinha 15 anos, em uma derrota do 'Bicho' para o Talleres, pela primeira divisão do Campeonato Argentino. Maradona entrou em campo durante o jogo, com a camisa 16, para substituir Rubén Aníbal Giacobetti.

Já em 2006, no livro "Eu sou El Diego", o primeiro que escreveu, o astro relembrou como foi o dia em que começou a escrever a história de uma trajetória de fama, desde as palavras do técnico que pediu apenas para que ele jogasse "como sabe".

"Eu fiz isso. Recebi a bola de costas para meu marcador, que era Juan Domingo Cabrera, ginguei e coloquei a bola entre as pernas dele. Passou limpinha e, em seguida, ouvi 'olé' do público, como boas-vindas", relatou.

Apesar da juventude, 'El Pibe' já era famoso no clube por entreter e surpreender os torcedores com malabarismos com a bola no intervalo das partidas. Em 1981, deixo o Argentinos Juniors e se transferiu para o Boca Juniors.

ÍDOLO INCONTESTÁVEL.

Embora tenha disputado as primeiras partidas com a seleção ainda garoto, antes da Copa do Mundo de 1978, disputada na Argentina e vencida pelos anfitriões, Maradona acabou ficando fora da lista de convocados pelo técnico César Luis Menotti para o torneio.

No ano seguinte, sob o comando do mesmo treinador, conquistou no Japão o título o Mundial sub-20.

Depois de atuar por um ano no Boca, clube que voltaria a defender entre 1995 e 1997, quando pendurou as chuteiras, Maradona defendeu Barcelona, Napoli, Sevilla e Newell's Old Boys. No clube italiano, alcançou um status parecido ao que teve na Argentina.

Tanto é verdade que, na Copa do Mundo de 1990, quando a 'Albiceleste' enfrentou a 'Azzurra' nas semifinais, justamente, no estádio San Paolo, os torcedores napolitanos ficaram ao lado do camisa 10 argentino, não da seleção do país natal.

Entre os principais títulos, estão os dois italianos conquistados nas temporadas 1986-1987 e 1989-1990, os únicos da história do Napoli. Além disso, uma Copa da Uefa e uma Copa da Itália com o clube.

Maradona também venceu uma vez o Argentino, com o Boca; uma Copa do Rei da Espanha, com o Barcelona, entre outras taças.

Com a seleção argentina, conquistou a Copa do Mundo de 1986 como grande protagonista, com atuações espetaculares, com aquele que foi considerado o gol mais bonito do século XX pela Fifa, no qual enfileirou meio time da Inglaterra nas quartas de final.

No México, também no duelo com os ingleses, rivais esportivos e políticos, devido à Guerra das Malvinas, Maradona marcou um gol com a mão, ignorado pelo árbitro tunisiano Ali Bin Nasser. Posteriormente, afirmou que o toque havia sido dado com "A Mão de Deus".

Após encerrar a carreira de jogador, iniciou na Argentina uma irregular carreira de técnico, tendo a primeira experiência no modesto Deportivo Mandiyú, em 1994, para depois comandar o Racing, no ano seguinte.

Passou por clubes dos Emirados Arábes, México e desde o fim do ano passado, comandava o Gimnasia La Plata, que só escapou da queda para a segunda divisão do Campeonato Argentino por causa do cancelamento dos rebaixamentos, devido à pandemia de Covid-19.

Em 2008, Maradona viveu o auge da carreira como técnico, ao assumir a seleção argentina, que já estava 15 anos sem conquistar um título - jejum que ainda perdura. Dois anos depois, após eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo, em goleada para a Alemanha por 4 a 0, pediu demissão.

POLÊMICAS E SAÚDE FRÁGIL.

Ao longo de toda a vida, as polêmicas acompanharam 'El Pibe', inclusive na vida pessoal. O astro chegou a brigar na justiça com a ex-mulher, não reconheceu vários dos filhos por anos, foi flagrado agredindo uma ex-namorada e foi acusado de abusar sexualmente de uma jornalista russa.

Maradona criticou a Igreja Católica, a Fifa, a federação argentina de futebol (AFA), além de diversos técnicos, jogadores e personalidades públicas. Na política, se envolveu nas últimas décadas com diversos líderes e foi opositor ativo do ex-presidente argentino Mauricio Macri.

Além disso, por diferentes razões, entre elas o consumo de drogas, drama que admitiu abertamente, sofreu com problemas de saúde, inclusive muito recentemente - ainda neste mês, passou por cirurgia cerebral.

Maradona foi internado no início de novembro em uma clínica em La Plata com um quadro de anemia, desidratação e desânimo. Após exames, foi diagnosticado um hematoma subdural, o que exigiu a transferência para Buenos Aires e a realização de uma delicada operação.

O astro, que havia completado 60 anos em dia 30 de outubro, recebeu alta no último dia 12. Desde então, estava em casa, na cidade de Buenos Aires, sob o acompanhamento de médicos e pessoas próximas.

Um dia antes da saída do hospital, Matías Morla, admitiu em entrevista coletiva, que Maradona havia passado por um drama por causa do estado de saúde, mas que havia superado as dificuldades e estava fora de perigo.

"Passou, talvez, pelo momento mais difícil da vida. Eu acho que foi um milagre que tenha se detectado esse derrame na cabeça, que poderia ter tirado a vida dele", declarou o advogado.

Devido à morte do lendário camisa 10, o presidente da Argentina, Alberto Fernandez, decretou três dias de luto oficial no país.