EFEBogotá

Os quatro países do Mercosul - Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai - se mantiveram discretos nesta sexta-feira diante de uma nova advertência da França sobre sua rejeição do projeto de acordo entre a União Europeia e o bloco sul-americano por razões ambientais.

Somente o presidente Jair Bolsonaro rebateu as críticas da França, mas de maneira indireta: "Quem nos critica não tem queimada porque já queimaram tudo", afirmou.

Bolsonaro, que participava de um evento no interior do Mato Grosso, região agrícola por excelência, insistiu que o desconforto dos países europeus em relação aos incêndios, que, segundo ele, acontecem todos os anos, se deve a interesses comerciais e de mercado.

A França, o país da UE mais crítico do projeto de acordo de associação com o Mercosul, reiterou sexta-feira sua rejeição ao pacto por razões ambientais e exigiu dos países sul-americanos mais proteção para a Amazônia e maior compromisso com o acordo climático de Paris.

O presidente francês, Emmanuel Macron, já havia ameaçado vetá-lo em agosto de 2019, e a comissão independente de especialistas encarregada por seu governo de analisar seu impacto apoiou sua posição hoje.

SILÊNCIO À FRANCESA.

Nos Ministérios das Relações Exteriores da América do Sul, a nova ameaça teve pouco eco público, embora o silêncio geral mostre alguma preocupação.

Além das declarações de Bolsonaro, o vice-ministro de relações econômicas e integração do Paraguai, Didier Olmedo, defendeu o acordo entre a União Europeia e o Mercosul e disse à Agência Efe que a aliança é uma reafirmação de compromissos sobre o meio ambiente.

"Com o acordo, é muito melhor atender às preocupações ambientais, porque nele reafirmamos que vamos cumprir os compromissos ambientais multilaterais", afirmou o diplomata.

Na visão do vice-ministro paraguaio, um acerto serviria para pressionar os países do Mercosul a atenderem às preocupações dos europeus.

Da Argentina, fontes oficiais consultadas pela Efe declaram que o governo de Alberto Fernandez, em princípio, tem uma opinião positiva sobre o pacto, mas entende que antes de submetê-lo ao processo de ratificação parlamentar, necessário para sua entrada em vigor, deve ser feito um estudo de impacto.

"É algo que deveria ter sido feito pelo governo anterior antes de assiná-lo", alfinetaram as fontes, que acrescentaram que tal pesquisa incluirá não apenas aspectos econômicos produtivos, mas também ambientais.

NÃO SOMOS TODOS IGUAIS.

Com relação à posição da França, o governo Fernández interpreta a objeção como não sendo dirigida à Argentina, cujos padrões ambientais para a produção agrícola, segundo ele, são muito altos. "Esses argumentos (da França) não são suficientemente precisos porque colocam todos no mesmo saco", considera.

Outras vozes de Buenos Aires, porém, aplaudiram a posição de Macron. O Greenpeace, por exemplo, rejeitou a potencial entrada em vigor de um acordo de livre comércio devido ao impacto ambiental negativo não apenas nesses dois blocos, mas em escala global, devido a seu efeito sobre a mudança climática.

"Tínhamos dito que não deveria haver nenhum progresso nesse acordo. A Europa compra muita carne e soja de Argentina, Brasil e Paraguai, que estão entre os três países com mais desmatamento do mundo, um fenômeno que se deve em grande parte à extensão do cultivo de gado e soja", afirmou hoje o coordenador da campanha de Florestas do Greenpeace, Hernán Giardini, à Efe.

PRESIDÊNCIA DO URUGUAI.

O Uruguai, que detém a presidência semestral do bloco, permaneceu em silêncio e não tomou posição contra a repetida ameaça francesa que está ganhando apoio em outros países europeus, como Áustria e Holanda. Pelo contrário, parte do setor exportador do país vizinho saiu em defesa do acordo e das práticas ambientais dos países do Mercosul.

A União de Exportadores do Uruguai (UEU) acredita que a Europa não sabe como é a produção no Mercosul, após a rejeição expressa nesta sexta-feira. A opinião é da gerente geral da entidade, Teresa Aishemberg.

"Como exportadores uruguaios, estamos muito interessados na Europa, que é um grande mercado. Temos trabalhado bem com a Europa, e o que vemos é que há uma grande falta de conhecimento por parte deles", disse.

"Nós cuidamos do meio ambiente e do bem-estar animal. Faz parte de nosso protocolo a produzir", completou o gerente geral da UEU, que denunciou que toda vez que os países europeus tentam assinar um acordo há lobbies contra ele.

Apesar das dúvidas da França sobre os cuidados com o meio ambiente, os países do Mercosul estão confiantes de que poderão assinar o acordo definitivamente antes do final do ano, sob a presidência temporária do Uruguai.