EFEAntonio Torres del Cerro, Recife (PE)

Luiz Inácio Lula da Silva escolheu o Nordeste e seu estado natal, Pernambuco, entre as primeiras escalas de seu roteiro de viagens políticas pelo Brasil após deixar a prisão, um gesto destacado pelo governador Paulo Câmara (PSB), que disse que o ex-presidente será "bem-vindo" em toda a região, onde deve reforçar o discurso contra o governo de Jair Bolsonaro.

Em entrevista concedida à Agência Efe no Palácio do Campo das Princesas, Câmara ressaltou o legado de Lula - que no domingo vai participar de um festival que o homenageia no Recife - e falou sobre a importância da pacificação do país, a viagem que governadores nordestinos farão à Europa em busca de investimentos e também a respeito do combate ao vazamento de petróleo que afetou o litoral do Nordeste desde setembro.

Efe: O que o senhor acha de Lula ter escolhido sua terra natal, Pernambuco (nasceu em Garanhuns), para a primeira fase de suas viagens políticas pelo Brasil uma semana depois de ter saído da prisão? (Obs: o ex-presidente ficou preso por 1 ano e 7 meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, mas uma mudança de entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre a prisão de condenados em segunda instância permitiu que aguardasse solto o julgamento de um recurso no Superior Tribunal de Justiça sobre o caso do tríplex do Guarujá).

Câmara: "Foi um presidente importante para o Nordeste, porque ele atuou de maneira decisiva para diminuir as desigualdades e isso foi muito importante. O Nordeste tem gratidão pelo trabalho que o ex-presidente Lula fez (...) Ele vem a Pernambuco, ele é pernambucano, com certeza será muito bem-vindo e vai fazer um ato político contando um pouco do que ele acredita, o que ele quer para o futuro, qual é o entendimento dele. A gente espera que o momento seja de pacificação do país e que se busque alternativas para o Brasil melhorar. É um debate importante, necessário, que o ex-presidente Lula vai fazer com toda sua competência.

Efe: As próximas eleições presidenciais são em 2022. Lula seria um bom presidente se puder concorrer e ganhar?

Câmara: Tem muita experiência, tem um projeto para o Brasil e cabe a ele buscar unidade, apresentar ideias, buscar debater em alto nível questões que possam ajudar a melhorar a vida do povo brasileiro. O ano de 2022 está muito longe, nós temos que esperar as resoluções de questões jurídicas que estão em andamento (Lula responde a vários processos e está impedido de concorrer em eleições). Espero que a Justiça prevaleça e que haja uma pacificação, que haja um fortalecimento das instituições e que em 2022 a gente possa ter eleições em favor do Brasil, para um Brasil melhor, porque infelizmente estamos passando por momentos de grande dificuldade.

Efe: O Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste (Consórcio Nordeste), que engloba os nove estados da região, estará de 18 a 22 de novembro em Paris, Roma e Berlim para captar investimentos. Como funciona essa iniciativa?

Câmara: Representamos 28% da população do Brasil, mas, em termos econômicos representamos em torno de 14% do PIB. Então há desigualdades que precisam ser enfrentadas. E os governos do Nordeste entenderam, por bem, diante de um grande desafio que o Brasil passa hoje, uma crise econômica e social sem precedentes, que era o momento de unidade em favor da região, dos estados, dos municípios, do povo nordestino. Isso foi pensado ao longo dos últimos três anos, não é uma iniciativa de 2019, já vinha sendo conversada e trabalhada.

Efe: Como vê a imagem internacional do Brasil desde que Bolsonaro assumiu o poder?

Câmara: O Brasil passa por um momento muito difícil, de crise econômica, social e política. Apesar das eleições (2018), há muitos conflitos entre a base política do governo e a oposição. Creio que são discussões que no meu entendimento não vão ajudar o Brasil a voltar a gerar empregos, a ter o respeito internacional que o Brasil precisa e merece. Estamos em um ambiente muito confuso, politicamente muito conturbado. Então cabe também a nós, governadores do Nordeste, que vamos fazer agora viagens internacionais, apresentar também nosso ponto de vista, de que é momento de pacificar, de sentar à mesa, de dialogar, planejar. Nós somos oposição ao governo federal, mas nós queremos que o Brasil dê certo. Nós vamos trabalhar muito para ajudar. Nessas viagens vamos mostrar nossa região, nosso potencial econômico.

Efe: Felizmente as manchas de petróleo no litoral do Nordeste diminuíram. Como avalia a reação do Governo Federal a este desastre ambiental?

Câmara: Tivemos dois momentos distintos. Um foi quando o óleo começou a chegar às praias nordestinas, no início de setembro deste ano. Pernambuco foi muito pouco atingido no início. Nós só fomos atingidos com volumes mais significativos a partir de 17 de outubro (...) Passaram-se mais de 60 dias para se ter alguma ideia do que originou esse vazamento, e a gente ainda não tem certeza do que foi exatamente. Demorou muito também para ser aplicado o plano nacional de contingência (...) Agora as coisas estão melhores, o vazamento diminuiu, a situação está mais controlada. A gente tem preocupação porque a origem ainda não é conhecida e porque o Brasil tem que estar preparado para questões como essa, porque são questões ambientais graves, que podem deixar sequelas muito significativas para o futuro. Fizemos nosso trabalho, e a gente espera, caso voltem a ocorrer eventos como esse, que haja uma preparação muito maior por parte dos entes responsáveis.