EFEWashington

O plano do governo Jair Bolsonaro de abrir as terras de povos indígenas na floresta amazônica para a mineração pode ter impacto sobre uma área de mais de 863 mil quilômetros quadrados (quase o tamanho do estado do Mato Grosso) e prejudicar a economia do Brasil, de acordo com um estudo científico divulgado nesta sexta-feira.

Uma equipe internacional de pesquisa liderada por Juliana Siqueira-Gay, da Universidade de Queensland (Austrália), advertiu que a proposta de Bolsonaro para permitir a atividade econômica em terras reconhecidas como indígenas na Amazônia terá um custo.

"Os territórios indígenas do Brasil são incrivelmente valiosos em termos sociais, ecológicos e econômicos", disse Juliana, além de acrescentar que "eles constituem uma categoria única de áreas protegidas, cobrindo 1,2 milhão de quilômetros quadrados, ou 23% do que é legalmente reconhecido como a Amazônia".

Os pesquisadores, que trabalharam tanto no Brasil quanto na Austrália, fizeram cálculos sobre os dados existentes e revisaram potenciais locais de mineração, quantificando as ameaças que a atividade representa para as florestas e seus ecossistemas.

Segundo a pesquisadora, o governo brasileiro "quer capitalizar este valor, promovendo a economia através da extensão da mineração".

Esta política, apresentada em fevereiro, "pode levar a uma perda de milhões, ou até bilhões de dólares por ano", afirmou Juliana.

A perda sobre a qual o grupo de cientistas advertiu está principalmente relacionada aos efeitos da produção de borracha, madeira e castanha-do-pará e ao aumento dos danos ao ecossistema.

Este conjunto de ativos ecológicos gera um lucro de US$ 5,12 bilhões para o Brasil, e "simplesmente não tem sentido financeiro destruir algo tão valioso", alertou Juliana.

"Os números são espantosos. É evidente que grande parte da Amazônia está ameaçada por esta proposta, incluindo a conservação de ecossistemas extremamente raros e a incrível diversidade dos grupos indígenas e suas culturas", acrescentou.

Se os 4.600 depósitos minerais conhecidos fora das áreas protegidas fossem abertos para exploração, cerca de 698 mil quilômetros quadrados de floresta seriam afetados.

"Mas, com a aprovação desta proposta, a área afetada pode crescer 20%, para 863 mil quilômetros quadrados", explicou a pesquisadora.

Laura Sonter, que colaborou com o estudo, disse que "se o Congresso aprovar o projeto de lei de Bolsonaro, haverá uma cascata de efeitos negativos, tanto no Brasil como internacionalmente".

Estas terras são o lar de 222 povos indígenas, com mais de 644 mil famílias vivendo em comunidades tradicionais e falando 160 idiomas", frisou.