EFEQuito

O toque de recolher decretado pelo presidente do Equador, Lenín Moreno, em Quito, capital do país, pôs em xeque a possibilidade de diálogo entre o governo e o movimento indígena para buscar soluções para encerrar a onda de protestos que já dura dez dias.

Moreno afirmou que a decisão de decretar um toque de recolher no distrito metropolitano da capital visava restabelecer a ordem em todo o país, em crise desde a publicação de um decreto que suspendeu o subsídio estatal sobre os combustíveis, uma medida que fazia parte de um pacote econômico elaborado junto com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em pronunciamento exibido em rede nacional de televisão, Moreno informou que determinou que o Comando Conjunto das Forças Armadas tomasse as medidas necessárias para estabelecer a ordem em Quito, que se transformou em um campo de batalha hoje. Além disso, parabenizou a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), que lidera os protestos, por ter aceitado a proposta feita por ele para dialogar.

Como fez em outras ocasiões, Moreno denunciou que por trás da violência dos protestos estão simpatizantes do ex-presidente Rafael Correa, seu ex-aliado político, a quem responsabiliza pelas supostas tentativas de desestabilização do governo.

A Conaie, porém, pediu que as Forças Armadas intercedam no conflito. Líderes do movimento, como Leonidas Iza, afirmaram que o governo parece ter perdido o controle da situação.

"Queremos conversar (com as Forças Armadas) para que se garanta a intermediação para resolver esse conflito. Essa intermediação visa garantir a paz, garantir a ordem constitucional, porque isso escapou das decisões do presidente da República", disse Iza.

O toque de recolher gerou preocupação sobre centenas de indígenas que estão acampados na Casa de Cultura Equatoriana, no centro de Quito, e em algumas instalações de universidades, que foram cedidas para abrigá-los durante a estadia na capital.

Enquanto a maior parte do movimento indígena recuava, alguns grupos de manifestantes seguiam causando tumulto na cidade e atacaram as sedes da emissora "Teleamazonas" e do jornal "El Comércio".

A Polícia Nacional tentava restabelecer o controle da situação nas ruas que haviam sido ocupadas horas antes nos arredores da Assembleia Nacional, o parlamento do país, e da Controladoria-Geral do Estado do Equador, que foi atacada e incendiada por manifestantes encapuzados.

A ministra de Governo do Equador, María Paula Romo, disse no Twitter que 30 pessoas foram presas por envolvimento no ataque à sede da Controladoria-Geral.

Depois do decreto que impôs o toque de recolher no distrito metropolitano de Quito, protestos foram registrados em outras cidades do país, como Guayaquil, considerada a capital econômica do Equador. No entanto, as manifestações não tinham a magnitude das registradas na capital.

O chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas, general Roque Moreira, afirmou que o toque de recolher em Quito faz parte do estado de exceção decretado por Moreno na semana passada. Segundo ele, o decreto permite que as forças de segurança limitem a circulação em espaços públicos, locais de associação e reunião, além de fiscalizar pessoas e veículos.

"Todo ato de violência, criminalidade, vandalismo e terrorismo contra bens públicos e privados, assim como contra a integridade das pessoas, levará à prisão dos responsáveis, que serão colocados às ordens das autoridades competentes", disse o general.

Os primeiros militares já estão percorrendo as principais avenidas de Quito em busca de manifestantes, que usam pedras, garrafas e outros objetos como armas. Muitos deles também estão equipados com máscaras antigás.

A onda de protestos, a pior enfrentada pelo país nos últimos anos, já provocou a morte de seis manifestantes, segundo o último balanço divulgado pela Defensoria do Povo do Equador. Além disso, 937 pessoas ficaram feridas e outras 1.121 foram detidas.