EFEGuillermo Ximenis, Londres

A cotação da libra esterlina e a Bolsa de Londres reagiram com altas à imponente vitória do primeiro-ministro Boris Johnson nas eleições britânicas, que facilita o caminho para o Brexit devido ao bom desempenho do Partido Conservador nas urnas e deixa para trás parte da incerteza que pesava sobre a economia do Reino Unido.

A moeda britânica se valorizou 1,31% em relação à europeia, chegando a 1,11988 euros, o maior nível em mais de dois anos, e 1,18% frente o dólar, a US$ 1,3327.

Em Londres, o pregão registrou o maior volume de operações em mais de dois anos e meio. O principal índice da bolsa, FTSE-100, avançou 1,10%, mas o maior impulso foi dado pelo FTSE-250, focado nas empresas de âmbito britânico, que subiu 3,4% e alcançou um máximo histórico.

De acordo com muitos analistas, a grande vitória de Johnson nas urnas elimina a possibilidade de o Reino Unido abandonar a União Europeia (UE) sem acordo no dia 31 de janeiro, quando terminará o prazo concedido por Bruxelas para a confirmação do pacto de saída.

Johnson poderá aprovar nas próximas semanas o acordo na Câmara dos Comuns e romper os laços com o bloco na data prevista de forma amistosa.

"Depois da volatilidade política vivida desde o referendo do Brexit, em 2016, a partir de agora deve estar assegurada uma maior estabilidade", opinou o chefe de Investimentos Globais da Credit Suisse, Michael Strobaek.

Saindo do bloco, o Reino Unido abrirá uma nova etapa nas relações com Bruxelas. Começará, então, a negociação sobre a futura relação com os 27 Estados-membros restantes, cujos detalhes não constam no pacto.

Essa negociação terá três lados, pois Johnson tenta avançar ao mesmo tempo num acordo comercial com os Estados Unidos, o que poderá dificultar a articulação das relações entre Reino Unido e UE.

Até dezembro de 2020, foi estabelecido um período de transição no qual Londres permanecerá integrada às estruturas do bloco europeu e cumprirá as regras da União, a fim de evitar uma ruptura abrupta que poderia prejudicar ambos os lados do Canal da Mancha.

Se, no final deste período, não tiver sido assinado um novo tratado com Bruxelas, o Reino Unido se depararia com um cenário semelhante ao de um Brexit sem acordo.

Diante dessa possibilidade, especialistas alertam que o impulso da vitória de Johnson para as finanças britânicas pode desaparecer nas próximas semanas se o governo não concordar em estender o limite de transição até 2021 ou 2022, algo que o primeiro-ministro tem recusado até o momento.

O risco de "um final abrupto do período de transição pode limitar o impulso para a alta", adverte o Credit Suisse. "Essas negociações serão ainda mais complicadas do que o acordo de saída", disse Michael Hewson, analista da CMC Markets.

No entanto, a expressiva vitória de Johnson significa que o chefe do governo está menos exposto à pressão da ala mais eurocética do próprio partido, que é contra o prolongamento da transição, e poderia adotar uma postura mais "pragmática", segundo o especialista.

O diálogo com Bruxelas será diferente de outras negociações comerciais internacionais. Reino Unido e UE partem de um alinhamento de normas completo e a negociação se concentrará em determinar as divergências que as duas partes estão dispostas a aceitar.

"Embora o resultado das eleições tenha mudado o sentimento do mercado, as decisões mais cruciais sobre a futura relação comercial do Reino Unido com a Europa e a magnitude de qualquer estímulo fiscal ainda estão por vir", alertou Thomas Pugh, da Capital Economics.

O analista ressaltou que a margem de manobra dada a Johnson pela esmagadora vitória eleitoral "pode permitir que busque uma relação comercial mais próxima com a UE do que a que tem sugerido até agora", já que não estará sob tanta pressão dos conservadores eurocéticos.

Segundo o acordo firmado com Bruxelas, o objetivo do governo britânico é assinar com a UE um acordo de livre-comércio semelhante ao que o bloco tem com o Canadá, uma relação muito mais distante que a do governo britânico anterior, liderado por Theresa May.

Na opinião de Pugh, na falta de novos estímulos, a economia britânica continuará "estancada" no quarto trimestre do ano, afetada também pelas dificultades que afetam o mercado financeiro global.