EFESarwar Kashani, Nova Délhi

Pelo menos duas coisas têm se mantido constantes em sete décadas de democracia na Índia: os pleitos seguem sendo o maior exercício democrático do mundo e Shyam Saran Negi, de 101 anos, retorna periodicamente às urnas desde que, em 1951, se tornou o primeiro eleitor após a independência.

Negi, que faz parte dos 900 milhões de cidadãos que estão aptos a votar nas eleições gerais do país asiático, tinha 34 anos quando se transformou no primeiro eleitor da Índia independente nos primeiros pleitos realizados, entre 1951 e 1952.

O esbelto centenário disse estar emocionado por ter a possibilidade de votar mais uma vez no próximo dia 19 de maio no seu estado natal de Himachal Pradesh, no norte da nação asiática, durante a última das sete fases dos pleitos que começaram no último dia 11 de abril.

Este antigo professor de escola, que no próximo dia 1º de julho completará 102 anos, é uma celebridade por mérito próprio.

"Sou o primeiro eleitor da democracia indiana, e estou contente de poder utilizar outra vez o meu direito democrático com a idade de 101 anos", declarou o idoso à Agência Efe quase em um sussurro.

Negi consegue falar a duras penas devido a complicações relacionadas com a idade e seu filho mais jovem, Chander Prakash, logo chegou em sua ajuda, relatando que seu pai se entusiasma ao pensar em unir-se aos eleitores mais jovens em Kalpa, um povoado montanhoso próximo à fronteira com o Tibete.

Só há um aspecto que lhe entristece. No dia da votação, Negi costumava deslocar-se até o colégio eleitoral acompanhado da sua esposa, mas, após sua morte em 2015, não poderão repetir nunca mais uma experiência que viveram juntos até as últimas eleições gerais de 2014.

Embora às vezes lhe falte a voz, ainda se lembra com clareza de como se transformou no primeiro eleitor da então jovem democracia indiana.

A nação asiática realizou suas primeiras eleições gerais em fevereiro de 1952 após conseguir a independência do império britânico em 1947.

Mas, no montanhoso estado de Himachal Pradesh, a data foi adiantada para outubro de 1951 diante do temor que as nevascas do rigoroso inverno pudessem impedir o desenvolvimento do pleito.

Negi, por ser funcionário público, foi alocado para trabalhar em um colégio eleitoral afastado do seu povoado, razão pela qual pediu para votar antes de cumprir seu dever, segundo explicou seu filho.

O pedido lhe foi concedido e Negi se transformou no primeiro a depositar sua cédula para eleger o primeiro parlamento indiano e o governo.

Durante os 60 anos seguintes, a façanha caiu no esquecimento. Até que, em 2007, uma antiga chefe eleitoral do estado, Manisha Nanda, desenterrou por acaso a história do eleitor histórico quando trabalhava em um projeto piloto para incluir fotografias nos cartões de votação.

Nanda descobriu então com os documentos de Negi, um eleitor de mais de 90 anos que vivia no distrito de Kinnaur, onde as primeiras eleições da Índia aconteceram com meses de antecipação e que costuma ficar isolado pelas fortes nevascas invernais.

Sua idade foi o suficiente para despertar a curiosidade de Nanda, que decidiu visitar o homem pessoalmente para averiguar quantas vezes tinha participado das eleições.

"Analisei todos os registros. Foi como um projeto de pesquisa, um trabalho enorme. E ali estava, descobri que era o primeiro eleitor da Índia e tinha participado de todas as eleições da Índia", explicou.

Em 2010, o então chefe da Comissão Eleitoral, Navin Chawla, se deslocou até a casa de Negi e lhe nomeou embaixador do organismo que controla os pleitos no país, com o objetivo de incentivar o voto em uma região onde tradicionalmente a participação é mais baixa que a média nacional.

Devido às complicações do terreno, o estado registrou uma participação do 64,4% nas parlamentares de 2014, dois pontos percentuais a menos que o resultado geral na Índia.

Da mesma forma que o primeiro eleitor da Índia, outros 1.001 centenários em Himachal Pradesh foram nomeados embaixadores da Comissão Eleitoral, embora nenhum tenha a honra de ter votado sem falta em todas as eleições gerais, estaduais e locais.

Negi, mais uma vez em um sussurro, disse à Efe que sempre instruiu seus quatro filhos e cinco filhas a votar, aconteça o que acontecer, e a ensinar seus netos que devem utilizar seus direitos políticos ou, caso contrário, "nunca poderão se queixar da má administração".