EFELisboa

Uma das profissões mais tradicionais de Portugal, a dos calceteiros, encarregados de construir pedra por pedra as calçadas do país, precisa se reinventar para garantir sua sobrevivência.

A histórica "calçada portuguesa" é resultado de um trabalho duro, que já "não atrai muito os mais jovens", segundo explicou em entrevista à Agência Efe Ana Baptista, uma das responsáveis pela Escola de Calceteiros.

A escola é um projeto da Câmara Municipal de Lisboa que nasceu em 1986 com dois objetivos fundamentais: formar novos profissionais e mostrar, principalmente ao público infantil, no que consiste este trabalho e sua importância para a sociedade portuguesa.

A história da calçada portuguesa remonta a 1842, quando o governador de armas do castelo de São Jorge pediu que uma parte do quartel fosse pavimentada, um trabalho que foi realizado por um grupo de reclusos e que, anos mais tarde, se estendeu à área da Praça do Rossio, no centro de Lisboa.

A atividade se profissionalizou e há quase um século a capital portuguesa contava com centenas de calceteiros, enquanto hoje há menos de 20, distribuídos em quatro equipes.

Apesar dos esforços da escola, o encarregado das equipes de calceteiros lisboetas, Paulo Almeida, que entrou para a instituição no mesmo ano da sua fundação, admitiu à Efe que os atuais profissionais são mais velhos.

"Os mais novos têm 50 anos de idade e 30 de serviço. É preciso renovar", destacou.

"Agora será aberto um concurso para que entrem dez pessoas", disse Almeida, antes de esclarecer que é um processo "lento" por se tratar de uma entidade pública.

As condições econômicas também não ajudam a atrair os jovens. O salário inicial é de 635 euros, o salário mínimo para a função pública em Portugal.

A Escola de Calceteiros conta hoje com apenas três aprendizes da Letônia - com uma estadia temporária graças a programas internacionais - e dois alunos portugueses.

O local, o único deste tipo que existe em Portugal, foi durante anos uma alternativa que garantia emprego na Câmara Municipal de Lisboa para os alunos que, agora, recorrem a ela para melhorar sua formação e encontrar trabalho em outros lugares.

Desde a sua criação, 238 alunos passaram pelas suas oficinas, dos quais mais de 90% não foram contratados pelo município.

Seus cursos são voltados para alunos de todas as idades, embora a maioria dos alunos sejam pessoas que há muito tempo estão sem trabalho e jovens que apostam na formação profissional depois de abandonar os estudos.

Para Ana Baptista, as atividades de sensibilização da escola são fundamentais: "É preciso promover a calçada entre as crianças, explicar o processo, potencializar a parte criativa e divertida do ofício".

Almeida, por sua vez, ressaltou a necessidade de rejuvenescer a equipe de calceteiros e garantir seu futuro a longo prazo, pois realizam um trabalho "fundamental" para a cidade.

"Nós temos trabalho o ano todo. Quando não são consertos, são trabalhos de conservação", disse Almeida antes de afirmar, em tom sarcástico, que as pessoas "não têm noção de quanto custa o chão que pisam".

Tanto Ana Baptista como Almeida acreditam que as instituições conseguirão incentivar as novas gerações para evitar que este ofício, "uma das marcas da paisagem urbana de Portugal", desapareça.

Pedro Talet Cara.