EFENairóbi

Um relatório divulgado nesta segunda-feira por um grupo de ONGs internacionais revelou que meninas são estupradas, usadas como escudos para "prevenir" ataques com balas e forçadas a se casar com soldados na República Democrática do Congo (RDC).

No documento, intitulado "Tudo o que tinha eu perdi", a Coalizão Global para Proteger a Educação dos Ataques (GCPEA), que é integrada por ONGs como Human Rights Watch (HRW), o Conselho Norueguês de Refugiados (NRC) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), denuncia os abusos cometidos contra a infância durante o conflito da província de Kasai em 2016 e em 2017.

"As milícias acreditavam que as mulheres jovens tinham poderes mágicos e frequentemente as usavam na primeira linha de defesa para mover suas saias e repelir soldados armados", disse o diretora-geral da GCPEA, Diya Nijhowne.

Além disso, o estudo, baseado em entrevistas com 55 estudantes, também aponta estupros nos ataques a escolas, sequestros para integrá-las em suas fileiras e casamentos forçados.

Assim, muitos menores foram assassinadas nos 38 ataques documentados das Forças Armadas Congolesas a escolas e também se referem a meninas que estavam sendo utilizadas como escudos humanos.

"Os líderes da milícia davam às meninas vassouras que consideravam mágicas. Deram-me um utensílio de cozinha de madeira que diziam que era uma arma mágica que os soldados não poderiam derrotar", narrou no relatório Lucia N, uma estudante de ensino médio que foi forçada a participar de várias batalhas.

A violência em Kasai, uma das regiões mais prósperas e pacíficas da RDC, começou em agosto de 2016, depois do assassinato do líder da milícia Kamuina Nsapu, muito crítico em relação ao governo.

Este assassinato desencadeou uma batalha entre a milícia, acusada de abusos, como o recrutamento forçado de crianças-soldado, e as Forças Armadas da RDC.

O conflito causou a morte de mais de 3,3 mil pessoas, incluindo dois analistas da ONU, e fez com que mais de 1,3 milhão de pessoas tivessem que deixar suas casas em Kasai Central, onde a Missão das Nações Unidas no país (Monusco) identificou 80 valas comuns.

Além disso, segundo a Acnur, cerca de 475 mil congoleses fugiram para países vizinhos.