EFENacho Temiño, Varsóvia

A história de heroísmo de Stanislawa Leszcynska, que arriscou a própria vida para realizar 3 mil partos em meio ao cenário de morte e desolação do campo de concentração nazista de Auschwitz, será levada ao cinema por sua sobrinha-neta, Maria Stachurska, sogra do atacante Robert Lewandowski, do Bayern de Munique e da seleção polonesa.

O documentário começa na Polônia sob a ocupação nazista. Apesar do medo de ser presa, Stanislawa e seu marido decidiram ajudar os judeus confinados na cidade de Lódz, na região central do país. Ela levava clandestinamente comida a eles, servindo-se da liberdade de movimento que tinha pela condição de parteira.

Em 1943, a Gestapo, a polícia secreta do regime nazista, descobriu as atividades do casal. Como punição, ela e os três filhos foram enviados a diferentes campos de concentração. O marido de Stanislawa conseguiu fugir, mas morreu em 1944 durante o Levante de Varsóvia.

A condição de parteira determinaria mais uma vez o futuro de Stanislawa em Auschwitz. Ela foi obrigada a trabalhar no que os nazistas chamavam ironicamente de "sala da maternidade", um quarto escuro e úmido onde a polonesa viu de perto o destino dado às mulheres grávidas: a câmara de gás ou a execução primária.

Só algumas delas eram enviadas para a "sala da maternidade". Uma assistente alemã declarava os bebês nascidos como mortos e os jogava, sem cortar o cordão umbilical, em um balde de água. Muitas vezes, as mães eram obrigadas a ver os filhos morrerem afogados.

Quando Stanislawa chegou a Auschwitz, só polonesas e soviéticas podiam dar à luz e ficar com os bebês, mas as chances de as crianças sobreviverem eram quase nulas, devido às condições de vida oferecidas aos prisioneiros do regime nazista alemão.

"Minha tia-avó, uma mulher de firme convicção católica, também recebeu a ordem de não cortar o cordão umbilical e condenar os bebês à morte. Mas ela se negou, desafiava as ordens do terrível doutor Jozef Mengele", explicou Stachurska em entrevista à Agência Efe.

Formada em Teologia, Starchuska, de 62 anos, decidiu levar a história da avó aos cinemas em um documentário no qual narra a luta da "parteira de Auschwitz" para trazer ao mundo e ajudar bebês que, sem ela, seriam usados para alimentar ratos.

"Eu tinha que contar essa história", afirmou.

Stanislawa era bastante relutante em falar sobre a experiência em Auschwitz, mas nunca poupou palavras para amaldiçoar os responsáveis pelos crimes que testemunhou.

O documentário, que será protagonizado por uma bisneta de Stanislawa, reúne alguns depoimentos de parentes de mulheres que sobreviveram a Auschwitz e foram ajudadas pela parteira. Eles dizem que a polonesa foi uma autêntica heroína, que com sua bondade trouxe um pouco de esperança a um local dominado pela desolação.

O filme traz também gravações feitas pela própria Stanislawa, que morreu em 1974. Ela relatou que vermes comiam a carne das pessoas moribundas e que milhares de mulheres morreram de disenteria no campo de concentração.

Segundo Stanislawa, durante o tempo em que permaneceu em Auschwitz, ela ajudou a realizar 3 mil partos. Só 30 bebês sobreviveram até janeiro de 1945, quando as tropas do Exército Vermelho da União Soviética expulsaram os nazistas do local.

A parteira permaneceu no campo de concentração após a libertação para cuidar dos pacientes que lá seguiam. O inverno que se seguiu matou outro milhares de antigos prisioneiros, que não resistiram às baixas temperaturas registradas naquele ano.

O último parto que Stanislawa realizou em Auschwitz ocorreu em um barracão incendiado pelos alemães em uma tentativa de esconder seus crimes.

Após o fechamento de Auschwitz, Stanislawa voltou a Lódz e viveu o resto da vida na cidade, que é palco de algumas das cenas do documentário, financiado pelo governo da Polônia.