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O polêmico programa de recuperação que nesta terça-feira completa três meses desde que foi lançado pelo presidente Nicolás Maduro não ajudou a Venezuela a sair da grave crise econômica, enquanto opositores, empresários e analistas insistem em criticar o pacote, que consideram impertinente.

O legislador antichavista Ángel Alvarado afirmou hoje à Agência Efe que os venezuelanos estão mais pobres que há 90 dias e que a economia do país caribenho está muito longe de recuperar-se, apesar das promessas de êxito no curto prazo feitas por Maduro.

O membro da Comissão de Economia e Finanças do parlamento venezuelano, o único poder controlado pela oposição, lembrou que o programa de Maduro impôs novos e maiores impostos em meio à hiperinflação que assola o país e que, segundo dados da Câmara, supera 3% por dia.

"O dinheiro segue perdendo valor e os impostos são mais altos, aqui temos um grande desequilíbrio fiscal que não se vai resolver aumentando os impostos sobre as pessoas. Precisamos de medidas integrais para fechar a brecha fiscal", destacou.

País com as maiores reservas provadas de petróleo no planeta, a Venezuela atravessa uma severa crise econômica que se expressa em escassez e hiperinflação, um indicador que o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que fechará em 10.000.000% no país caribenho em 2019.

Para atalhar a crise, Maduro lançou um programa que batizou como de "recuperação econômica", que inclui medidas tais como um substancial aumento do salário mínimo, congelamento de preços de alguns alimentos, reforma tributária e uma reconversão que instaurou um novo cone monetário.

A renda mínima legal ficou ancorado à criptomoeda "petro" e ficou em 1.800 bolívares mensais, ainda vigentes, mas a desvalorização a levou dos US$ 30 iniciais a pouco mais de US$ 24 no dia de hoje, segundo a taxa de câmbio oficial.

Se a transação for realizada no mercado paralelo, o salário mínimo não superaria US$ 7 mensais.

Por outro lado, a Agência Efe constatou que os alimentos cujos preços foram congelados escasseiam nos supermercados, enquanto o Centro de Documentação e Análise Social da Federação Venezuelana de Professores (Cendas-FVM) informou que a cesta básica sofreu um aumento de 147.229% em um ano.

Nesse sentido, Alvarado afirmou à Efe que as medidas não contribuem de maneira efetiva para domar os males da economia venezuelana, e que o pacote precisa de maior produção da estatal Petróleos da Venezuela (Pdvsa) e de financiamento internacional, esse último uma aresta não contemplada pelo programa de Maduro.

"É preciso abrir-se novamente aos mercados financeiros internacionais, para isso é fundamental fazer reformas profundas na economia, suspender todos os modelos de controles e expropriações que existem e definitivamente dar maiores incentivos ao setor privado. Se isso não ocorre, eu não vejo maneira de haver uma recuperação econômica", ponderou.

O parlamentar disse também que os preços na Venezuela aumentaram 25 vezes nos últimos três meses e que a proposta de aumentar o preço da gasolina, tão barata que um só dólar da taxa oficial basta para encher os tanques de mais de 30.000 veículos médios, "ficou no papel" pela falta de um plano de cobrança adequado.

O entusiasmo inicial de Maduro pelo programa também parece ter decaído, e hoje mesmo o presidente fez um discurso transmitido em rede obrigatória de rádio e televisão durante mais de uma hora sem referir-se ao tema.

O colapso da economia se viu, além disso, potencializado pela marcada queda da produção na indústria petrolífera da Venezuela, de onde o país obtém 96% das suas receitas.

De acordo com o último relatório da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), a Pdvsa quase não atingiu a média de 1,17 milhão de barris por dia durante o último mês de outubro, um nível que é 39% inferior ao de todo 2017.