EFEPor José Antonio Vera e Virgínia Hebrero. São Petersburgo (Rússia)

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, está disposto a dialogar com seu colega dos Estados Unidos, Donald Trump, a quem ainda não conhece pessoalmente, mas considera uma pessoa "simples" e "direta".

Putin assim se expressou nesta quinta-feira em entrevista que concedeu aos presidentes de dez grandes agências de notícias, entre elas a Efe, no marco do Fórum Econômico de São Petersburgo, na qual denunciou, além disso, uma "russofobia" por parte do Ocidente e negou uma vez mais que o Kremlin tenha tentado influir em processos eleitorais através de ciberataques.

"Não nos conhecemos. Não nos encontramos uma única vez. Mas (o então candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald) Trump disse que as relações com a Rússia tinham um nível muito baixo, e que era necessário melhorar essa relação. Estamos dispostos a dialogar com Trump", afirmou Putin, lembrando uma conversa que teve com o bilionário antes de este chegar à Casa Branca.

"Tenho que reconhecer que gosto deste tipo de pessoas: são simples, diretas, têm uma visão muito franca das coisas, e isso pode ser muito proveitoso", acrescentou.

O presidente russo também disse que "interessa muito" a seu país "abrir linhas de diálogo com Trump", mas ressaltou não saber se será possível.

Putin começou a entrevista denunciando o que Moscou percebe como uma crescente "russofobia" no mundo e disse que se isso deve à defesa que o país faz de seus "interesses legítimos" na arena internacional.

"Um mundo multipolar está sendo construído, e isto não agrada aos defensores do monopólio", afirmou o presidente russo.

Ele denunciou tentativas de conter a Rússia com medidas como as sanções econômicas "que não funcionam" e opinou que a russofobia não durará eternamente, porque "é contraproducente e prejudica a todos".

Putin não poupou críticas ao posicionamento militar dos Estados Unidos e da Otan em várias partes do mundo e a ameaça que isso representa para a Rússia.

O russo afirmou que Washington utiliza como pretexto a ameaça do programa nuclear da Coreia do Norte para o posicionamento do seu escudo antimísseis na região do Pacífico.

Putin advertiu que o ambicioso programa americano "destrói o equilibro estratégico no mundo todo" e acusou os meios ocidentais de silenciar esse "perigo".

Sobre a possibilidade de que a Suécia ingresse na Otan, Putin disse que "isso vai causar impacto de forma negativa" nas relações com o país. "Consideraríamos como uma ameaça adicional e teríamos que responder de alguma maneira", declarou.

Perguntado sobre se Moscou está por trás dos ciberataques ao Ocidente, o líder do Kremlin destacou que o Estado russo não participa de atividades de pirataria eletrônica.

Putin acrescentou que os hackers não podem influir nos resultados de algumas eleições, em referência à vitória de Trump nos EUA.

Sobre seu futuro politico, Putin disse que ainda é cedo para anunciar se vai concorrer à reeleição nas eleições presidenciais de março de 2018.

"Agora não é o momento. Falta cerca de ano, e isso é muito tempo. No mundo contemporâneo da política, é muito", respondeu assim Putin a uma pergunta do presidente da Efe.

O chefe do Kremlin, que retornou à presidência em 2012 após quatro anos como premiê, assegurou que, "ao começar qualquer pré-campanha eleitoral, todo mundo para de trabalhar", e por isso não é conveniente fazer um anúncio sobre sua eventual candidatura.

Analistas políticos dão como certo que Putin vai concorrer à reeleição e que, visto que sua popularidade ultrapassa 80%, conseuirá um resultado histórico de mais de dois terços dos votos.

O presidente afirmou que a economia russa está se recuperando e que o país tem se habituado a conviver com um preço baixo do petróleo, o seu principal produto de exportação.

"Estamos melhor, isso é claro", disse Putin, destacando que a Rússia está trabalhando na diversificação da sua economia e que "nada mudou com as sanções" impostas ao país pela anexação da Crimeia e pelo conflito no leste da Ucrânia.