EFEPalma de Mallorca (Espanha)

Era uma noite chuvosa em Palma de Mallorca, Espanha, em 2007. Dois jovens fazem "racha" numa avenida da cidade, até que um dos carros se descontrola e provoca uma tragédia que mudaria a vida de Jaime Cardona, maratonista, que tinha 38 anos na época.

O atleta estava a reabastecer o veículo da mulher numa bomba de gasolina, após ir buscar a camisola que utilizaria no dia seguinte, na Maratona de Calvià, cidade localizada nas Ilhas Baleares. Em pé, ao lado do automóvel, lembra-se de ter ouvido um forte barulho e ter dado um saldo para o lado.

O movimento que fez "num décimo de segundo", conforme contou, foi responsável por salvá-lo de ser atingido pelo carro que vinha em alta velocidade. O pé direito, no entanto, ficou gravemente ferido por causa do impacto.

"Na mesma hora, soube que a minha vida estava mudada. Iam cortar o meu pé, embora, naquele momento, eu não sentisse nenhuma dor, de tão forte que foi o choque", contou Cardona, então com 14 maratonas no currículo.

O atleta lembra que, de tão magro, na ambulância, pensaram que se tratava de um toxicodependente, e perguntaram se tinha consumido alguma substância ilícita. Ouviram como resposta da vítima que tinha jantado massa com um refrigerante e que ia correr no dia seguinte.

Na mesma noite do acidente, teve o pé direito amputado no Hospital San Dureta, em Palma, no primeiro capítulo de uma nova vida. Cardona garante, contudo, que em nenhum momento perdeu a esperança de continuar a praticar desporto, embora tenha ouvido de um dos médicos que o tratou que nunca mais ia voltar a correr.

Um dia depois da cirurgia, pediu à sua mulher uma caneta e um caderno, que guarda até hoje com todo o cuidado. Na primeira página, colocou o título "Plano de recuperação". A primeira meta era conseguir correr a maratona de Calviá no ano seguinte.

O objetivo não foi alcançado no prazo previsto, mas sim em dezembro de 2010. Na corrida que ficou impedido de participar por causa do acidente, voltou e conseguiu cruzar a linha de chegada, um momento emocionante.

"Após a operação, a minha cirurgia consistiu em como recuperar. Só pensava em recuperar", contou.

O empenho inicial foi de voltar a andar e correr com apoio de prótese, o que não foi um caminho fácil, segundo revelou o espanhol, que vai fazer 50 anos em agosto deste ano. O primeiro aparelho custou 9 mil euros.

"Não servia nem para ir à piscina", disse.

A partir daí, o espírito de luta e superação permitiu que fosse possível disputar mais 11 maratonas, entre elas as de Paris, Berlim, Barcelona e Madrid, entre outras.

Em casa, onde vive com a mulher e os dois filhos, mostra orgulhoso as medalhas, também das 450 meias-maratonas que participou, além de muitas fotos, recortes de entrevistas, entre outras lembranças da trajetória desportiva.

"Isso é o que tento passar nas palestras, quando digo que venho de uma família de cinco irmãos, com um pai que nos abandonou quando éramos pequenos. Não pude estudar, porque não tínhamos dinheiro, e tive que trabalhar aos 16 anos. Onde há um problema, existe uma solução. É a minha maneira de encarar a vida", disse.

Atualmente, Cardona usa duas próteses, uma de dois quilos, que usa no dia a dia, além de uma 1,4 quilo, para corridas. Nas maratonas, o atleta costuma percorrer os pouco mais de 42 quilómetros na casa de três horas e 20 minutos.

"Mas, pretendo melhorar", brincou o otimista espanhol.

Javier Alonso