EFELisboa

O antigo futebolista espanhol David Belenguer, que se retirou em 2011 depois de uma carreira com passagens em clubes como Betis ou Getafe, é agora o presidente do Tondela, dizendo numa entrevista com a Efe que a sua cruzada em Portugal passa por inculcar ambição dentro de um clube modesto que aposta pela academia.

Está há ano e meio como presidente, depois de adquirir 80% do clube de forma individual, e conseguiu salvar os imóveis da última época, tanto ao nível desportivo -o clube garantiu a manutenção-, como económico, já que, apesar da pandemia, o plantel não entrou em "lay-off" graças à gestão de antes.

O desafio de David Belenguer, que tem uma "excelente" relação com o dirigente anterior do Tondela, Gilberto Coimbra -que representa o 20% restante do clube-, é pôr em marcha em finais de 2021 a Cidade Desportiva do Tondela, já que, até à data, a academia do clube treinava toda no mesmo campo.

A política de Belenguer para que a equipa cresça passa pela aposta na academia e o aumento dos ativos da equipa.

As últimas contratações foram a do uruguaio Enzo Martínez, que chega emprestado do Peñarol com opção de compra, e os defesas internacionais argelinos vindos do Bordéus Abdel Medioub (emprestado com opção de compra) e Naoufel Khacef, com contrato por dois anos.

Pergunta: Como surgiu o projeto?

Resposta: Nasceu quando procurava opções para um grupo de investimento, que no final optaram por outras opções. Nasceu aí uma boa amizade com o presidente do clube, Gilberto Coimbra, e vi a possibilidade de ser eu pessoalmente a dar esse passo, porque o Tondela reunia todas as condições. Decidi fazê-lo com o apoio dessa empresa de gestão, embora mais tarde essa empresa tenha saído e o vínculo que temos com ela já não está em vigor. Esperemos que sejamos capazes de nos enganar o menos possível e levar o Tondela à zona mais tranquila da classificação, ganhando mais tranquilidade num projeto a mais longo prazo. É uma empresa minha, eu sou o dono.

P: Como é que o Tondela evoluiu ao longo deste tempo?

R: Quando nos metemos neste projeto foi para acrescentar o nosso grão de areia. Foco-me na parte estrutural, em sermos capazes de construir uma boa estrutura, um bom ambiente para ter opções de crescimento. É a maneira que creio que esta indústria se deve mover. Com boas instalações, com boas condições de trabalho, sem isso não se pode crescer. Uma boa cidade desportiva será o próximo passo do Tondela. E a partir daí, com bons gestores, é possível planear um crescimento. Sem isso podes crescer a curto prazo, mas tens data de validade, garantidamente.

Há um crescimento no património, na qualidade dos ativos, com jogadores em propriedade, não em empréstimo. Direitos sobre jogadores. Uma capacidade de crescimento que antes não tinhas, porque eram tomadas decisões para sobreviver, para continuar na primeira divisão. Mas não se crescia em património e o lucro era levado por outros e o risco era assumido pelo Tondela. Atualmente estamos a mudar isso tudo.

P: O plantel

R: Um plantel consistente e, sobretudo, muito dinâmico, com muita energia e uma característica principal: ambição; é uma cruzada minha, inculcar ambição dentro do clube, sem deixarmos de ser humildes. Que sejamos capazes de lutar contra qualquer que seja, que nunca, seja quem for, Benfica, Porto, Sporting ou Manchester United entrem em campo a pensar que têm uma possibilidade. Transmitirmos isso desde o topo até ao último dos funcionários para mudar essa mentalidade de clube de interior, muito pobrezito, e que caímos bem a todo o mundo.

P: O treinador espanhol Pako Ayestarán

R: O Pako reúne a capacidade de exigência. É algo que sentia mais falta no Tondela. Não quero dizer que os treinadores que vieram ou os plantéis não sejam exigentes, mas sentia falta que todos fossem exigentes desde o primeiro dia de treinos, porque não se pode deixar tudo para o final quando tens a água pelo pescoço.

P: Contratações

R: Acho que pagamos um preço elevado de uma decisão que foi tomada em plena fase de construção do plantel. Decidimos tomar riscos e trazer os jogadores que queríamos desde o início. Temos muitas boas expectativas, pelo rendimento e competitividade que vão colocar dentro do plantel, e outros vão melhorar pela concorrência que criámos. Pensámos em fazer uma equipa e melhorar o que temos.

P: O defesa uruguaio Enzo Martínez

R: Custou muito trazê-lo, para ser sincero cheguei a pensar que não o traríamos. Estava na luta pela Libertadores. Dá-nos um tipo de jogador que não tínhamos. O jogador uruguaio é a minha fraqueza, tenho que reconhecer. Ponham um defesa uruguaio na minha vida e sou feliz. Gosto de ter bons rapazes que sejam capazes de se transformar em campo.

P: Candidatura ao Mundial 2030 organizado por Espanha e Portugal

R: Seria uma honra. Creio que iria ajudar muito para unir os dois povos. Quando nos misturamos somos muito mais iguais do que parece. É uma das coisas que mais alegria me faria. Ajudaria à união de espanhóis e portugueses, temos muito em comum. Quando nos olhamos de frente somos muito parecidos e nos complementamos muito bem. Seria uma candidatura muito potente.

Por Carlos García