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Os cânticos racistas entoados este domingo por alguns adeptos do Hellas Verona contra Mario Balotelli, avançado do Brescia, voltaram a envergonhar a Série A italiana, que já registou três graves casos de atitudes discriminatórias nas bancadas nos primeiros dois meses e meio de competição.

O belga Romelu Lukaku, avançado do Inter de Milão, e o costa-marfinense Frank Kessié, médio do AC Milan, também foram alvo de cânticos racistas numa temporada na qual a ignorância e a discriminação estão a escurecer o valor de um torneio que, a nível estritamente desportivo, está a crescer.

Pela segunda vez neste ano, uma parte dos adeptos do estádio Bentegodi de Verona foram os protagonistas destes cânticos. Calhou agora a Mario Balotelli ser o destinatário dos insultos enquanto estava a disputar uma bola junto à zona de canto.

Ao ouvir os cânticos, Balotelli apanhou a bola com as mãos e lançou-a com violência para as bancadas, antes de se aproximar do túnel de acesso aos balneários ameaçando recusar-se a competir.

Os colegas e os rivais de Balotelli tentaram-lhe convencer para que continuasse em jogo, enquanto a maioria dos adeptos do Bentegodi, incomodados com os responsáveis pelos cânticos, saíram em seu apoio e começaram a cantar o nome do jogador.

A equipa de arbitragem do encontro aplicou o regulamento promovido pela Federação de Futebol Italiana (FIGC) que permite interromper o jogo ou abandona-lo definitivamente em casos de racismo. Parou o duelo durante cerca de quatro minutos até que a calma voltasse.

O encontro acabou com vitória 2-1 do Verona e o golo do Brescia foi precisamente anotado por Balotelli.

"Obrigado a todos os colegas no campo e fora do campo pela solidariedade que me mostraram. E obrigado por todas as mensagens recebidas por vocês, os adeptos. Obrigado de coração. Têm demonstrado que são homens de verdade, não como os que negam a realidade", escreveu Balotelli no Instagram.

Outro caso lamentável a envergonhar a Série A, liga unida em condenar os ignorantes que, com a sua atitude, voltaram a manchar a imagem do futebol italiano no mundo.

Já este sábado, o árbitro foi obrigado a parar durante alguns minutos o jogo entre a Roma e o Nápoles, o denominado 'derbi do sul', por cânticos ofensivos dos adeptos romanos contra os napolitanos: "O Vesuvio, lavali col fuoco" (Ó Vesúvio, lava-os com fogo).

"Estamos com o Mario, estamos contra todas as formas de racismo. Racistas ignorantes", foi a mensagem publicada nas redes sociais pelo representante de Balotelli, Mino Raiola, juntando-se à condenação do ocorrido.

O avançado italiano já foi vítima de racismo durante a sua etapa na Ligue One francesa, quando vestia a camisola do Nice. Aconteceu em janeiro de 2017 numa visita ao Bastia e também meses depois num partido jogado em Dijon.

"Tenho uma pergunta para os franceses. É normal que os fãs do Bastia me tenham feito sons de 'macaco' e 'uh-uh' durante todo o jogo e que ninguém do Tribunal disciplinar tenha dito algo? O racismo é legal em França? Ou só em Bastia?", escreveu na altura nas redes sociais.

Aos dois casos de racismo registados esta época em Verona acrescentou-se também o do Cagliari contra Lukaku, num estádio que já tinha sido protagonista indesejado em anos anteriores com cânticos e insultos contra o francês Blaise Matuidi, jogador da Juventus.

A opinião pública italiana está de acordo que, em situações deste tipo, deve-se juntar às condenações verbais as condenações práticas e concretas. Ultimamente, vários clubes italianos, como a Roma, negaram o acesso ao estádio a uns fãs que protagonizaram atitudes racistas.

As câmaras de segurança localizadas nos estádios permitem controlar a todo o momento o comportamento dos fãs e averiguar facilmente a sua identidade.

Tanto os membros dos clubes como a imprensa coincidem que, além de fomentar os valores do desporto nas escolas, é necessário identificar os responsáveis e aplicar condenações exemplares para desincentivar ditas atitudes.

Medidas a aplicar rapidamente para que a bola volte a ser a única protagonista do desporto mais seguido do mundo.

Andrea Montolivo