EFELisboa

As cartas ficaram para cima em Portugal: a direita de sempre não resiste à investida dos socialistas e o desgaste chegou ao limite. Com os piores resultados em décadas, esgotados e sem discurso, a oposição conservadora oscila já entre o susto ou morte.

Foi necessária uma calamitosa derrota para que seja diáfano o que era anunciado por sondagens e várias eleições municipais, europeias e regionais nos últimos quatro anos, que a direita perdia força para convencer.

O despertar acabou por chegar numa noite de eleições legislativas que certificava a folgada vitória dos socialistas, com 36% dos votos, e bons resultados para os seus parceiros de esquerda radical, que podem alcançar um novo acordo.

E na direita tradicional, catástrofe.

O Partido Social Democrata (PSD, centro-direita), registou os piores resultados desde 1983, oito pontos abaixo dos socialistas, uma notícia que recebiam em silêncio sepulcral na sede do partido mas que o seu líder, Rui Rio, não admite.

"O PSD deu um passo à frente para reconquistar a confiança dos portugueses", assegurava num discurso com cariz kafkiano no qual chegou a dizer, para perplexidade da imprensa, que apesar de perder doze deputados a respeito de 2015 tinha obtido resultados similares.

"Não há nenhum desastre!", quase gritou Rio perante os seus militantes. A perda de votos foi uma constante desde que pegou nas rédeas do PSD em janeiro de 2018.

E enquanto isso, o democrata-cristão CDS-PP vivia um funeral. O partido que há dois anos queria ultrapassar o PSD como primeira opção da direita passava de 18 a 5 cadeiras, ao conseguir 4,25% de votos, a sua pior marca histórica.

A sua líder, Assunção Cristas, não quis prolongar a agonia, afastando-se do cargo quando a contagem ainda rondava os 50%, abandonando precipitadamente a sede.

A sua saída num carro escuro em completo silêncio tornou-se numa metáfora de uma direita esgotada, que perde no total 25 cadeiras após passar quatro anos incómodos e sem encontrar o seu lugar frente ao sucesso económico de António Costa.

"Há uma percepção que a direita não está a ser eficaz na oposição", destaca à Efe Isabel David, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, que ressalta que a esquerda arrebatou o principal trunfo dos conservadores: a gestão económica eficaz.

Assim, os avisos que com a esquerda vinha o diabo caíram no chão diante da descida histórica do desemprego e do défice, o aumento do salário mínimo e o crescimento do país acima da média europeia.

Foi tão complicado de digerir que a direita não atacou nem sequer pela lacuna evidente desta legislatura, a austeridade que boa parte da sociedade portuguesa continua a sofrer para se poder enquadrar as contas macroeconómicas.

Resultado: inapetência dos eleitores conservadores, que não entenderam por que com esta paisagem o PSD, líder da oposição, se mostra disponível para pactos com Costa.

Também o porquê do CDS apresentar sozinho moções de censura que sabe condenadas ao fracasso devido à sua irrelevância parlamentar.

A sensação era que ninguém servia de oposição ao primeiro-ministro.

A partir de agora farão menos, concentrados por enquanto nas suas crises internas, com o CDS à busca de novo líder e o PSD a afiar facas contra Rio, a quem sempre se questionou internamente.

"Os críticos nunca se calaram, e a posição de Rui Rio fica muito debilitada", comenta David.

À espera da catarse que vai necessariamente seguir este susto, a queda dos conservadores tradicionais abre a porta a dois novos partidos que aumentam a desintegração da direita.

O primeiro é o Chega, de extrema-direita, que consegue o seu primeiro deputado, e o outro, o Iniciativa Liberal, também com uma cadeira.

Era impensável há quatro anos; esta é a parte da morte.

Cynthia de Benito