EFEVilar Formoso (Portugal)

Tornar a fronteira comum num eixo estratégico, com o Estatuto do Trabalhador Transfronteiriço e o Centro de Economia Social Ibérico, é uma das grandes apostas de Portugal e Espanha pelo desenvolvimento, explica à Agência EFE a ministra portuguesa do Trabalho, Ana Mendes Godinho.

Mendes Godinho participa nestes dias na campanha do Partido Socialista (PS) para as eleições legislativas de 30 de janeiro com a convicção de que é preciso dar voz ao interior de Portugal e à fronteira luso-espanhola.

"Deve-se colocar esta zona no centro das decisões. É difícil, sim, mas é possível", assegura numa entrevista realizada no escritório da Efe na localidade de Vilar Formoso.

Fazer campanha na região Centro é "uma forma de dar voz ao interior e colocá-la no foco das decisões".

"O problema do interior é que não tem força porque não se une". Por isso, ressalta, "é determinante trabalhar com Espanha para que a 'raia' dos dois países se una e tenha cada vez mais força para atrair investidores e emprego".

Iniciativas como as eurocidades são fundamentais, assim como estratégias conjuntas, como o Estatuto do Trabalhador Transfronteiriço e o Centro de Economia Social Ibérico.

ESTATUTO TRABALHADOR TRANSFRONTEIRIÇO EM 2022

Reivindicado por cidadãos de ambos países, a ministra defende que o Estatuto do Trabalhador Transfronteiriço será uma realidade em 2022.

Mendes Godinho trabalha com a ministra espanhola do Trabalho, Yolanda Díaz, -uma "pessoa fantástica", diz- para o levar em frente.

O objetivo é criar "uma identidade própria para os trabalhadores transfronteiriços, para que não haja fronteiras. E, assim, que não tenham dificuldades, tal como quando a fronteira comum fechou durante os confinamentos.

Os governos pretendem "garantir que os trabalhadores transfronteiriço tenham acesso aos mesmos serviços em ambos países".

Será possível em 2022, "é essa a nossa meta", ressalta.

CENTRO DE ECONOMIA SOCIAL IBÉRICO

Outra grande aposta comum é o Centro de Competências de Economia Social Ibérico, que será inaugurado na Guarda, a cerca de 40 quilómetros da fronteira espanhola de Salamanca.

Com um investimento de 10 milhões de euros dos Fundos de Recuperação da União Europeia, permitirá "criar soluções para o envelhecimento, que serão exportadas para toda a Europa", indicou Ana Mendes Godinho.

O centro terá também o apoio de universidades como Salamanca (Espanha) e Coimbra (Portugal).

A ministra admite que "a situação no interior de Portugal é crítica -despovoado e envelhecido- e é tempo de o repovoar".

Neste sentido, a fim de atrair investimento para o interior, o Governo português aprovou há algumas semanas a criação de um Porto Seco na Guarda, que estará muito ligado à zona fronteiriça de Vilar Formoso e que "será uma porta de entrada para a Europa", argumenta.

ELEIÇÕES DECISIVAS

Nos últimos anos as empresas estrangeiras têm visto Portugal como um destino interessante para entrar na Europa "graças à sua estabilidade e boas ligações com o mundo".

Mendes Godinho salienta também que a taxa de desemprego em Portugal caiu para mínimos históricos -6,4%- e que o PS planeia aumentar o salário mínimo, atualmente em 705 euros, para 900 no próximo mandato.

"Precisamos de continuar neste caminho com estabilidade e força, demonstrámos que o caminho não é o da austeridade", assegura a ministra, em plena campanha socialista para as eleições, que foram antecipadas depois do chumbo do orçamento de 2022 no parlamento.

Os socialistas, que governam em minoria desde 2019, perderam o apoio dos seus antigos parceiros de esquerda e procuram agora a maioria absoluta.

"As pessoas sentem que não se deve voltar atrás, aos tempos do congelamento dos salários, do corte das pensões ou do corte dos direitos dos trabalhadores", salienta a ministra do Trabalho.

O PS pede apoio para garantir a estabilidade, mas o nível de eleitores indecisos, mais de 20%, e confinados por covid-19 no dia das eleições -estimado em cerca de 400.000- desempenhará um papel fundamental nos resultados.

Por isso, Mendes Godinho explica que a mobilização em campanha tem sido diferente em tempos de covid, com as ruas vazias.

É uma "campanha muito mais digital, comunicação através de grupos na Internet, televisão, rádio…", conclui.

 Por Carlos García