EFESão Paulo

Desde que perdeu o seu trabalho há três anos, Edson Veloso deambula pelas ruas e sobrevive sobretudo da generosidade dos habitantes de São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, que tem visto o número de pessoas sem abrigo subir 31% durante a pandemia de coronavírus.

"Hoje consegui uma vaga numa casa de acolhimento, que não é fixa. Todos os dias tenho que (...) ligar ou esperar na fila. E quando não se consegue vaga é ficar na rua", explica à Agência Efe.

Veloso trabalhava como colaborador numa empresa que fornece água a todo o estado de São Paulo, mas uma severa crise hídrica causou a sua demissão poucos meses antes do aparecimento da covid-19.

Desde então, este homem de 37 anos procura a sua fonte de sobrevivência nas ruas da maior metrópole da América do Sul, com cerca de 12 milhões de habitantes, e ele é apenas uma das 31.884 pessoas que não têm um teto na cidade, segundo o Censo da População em Situação de Rua divulgado esta semana pela Câmara.

Esse total representa um aumento de 31% frente aos 24.344 indivíduos que não tinham um lar em 2019, mas líderes de organizações sociais denunciam que o número oficial está "muito abaixo do número real".

"A crise na verdade sempre existiu, mas a pandemia agravou os seus efeitos porque o desemprego aumentou, assim como a tensão entre os grupos familiares empobrecidos e a falta de habitação", diz à Efe o padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua.

Além disso, segundo indica, a polémica gestão do governo de Jair Bolsonaro, de extrema-direita, tornou-se noutro desafio na luta pela sobrevivência.

"O Governo Bolsonaro é genocida. Todos o sabem e não é nenhuma novidade, não sou eu a dizer, mas sim milhões de vozes", ressalta.

A crise sem precedentes levou a claras transformações no perfil da população em situação de rua. Apesar dos homens serem maioria, a percentagem de mulheres sem abrigo aumentou desde 14,8% em 2019 até 16,6% em 2021, o que se reflete também num aumento de crianças e famílias inteiras sem-abrigo.

Ermelinda Vitar é uma dessas mulheres que procuram nas avenidas paulistas o seu sustento. Depois de passar mais de uma década sem um teto, atualmente consegue uma ou duas noites por semana numa pensão, graças ao seu trabalho como cantora de rua. Embora tudo dependa da benevolência da sua audiência.

"Vou tocando guitarra pela cidade para tentar conseguir os 50 reais (9,25 dólares) da pensão, mas às vezes nem isso. Hoje por exemplo só consegui 7 reais (1,30 dólares)", lamenta.

Quanto à alimentação, por outro lado, há muito que Vitar prescindiu dos jantares, porque "na vida que se leva na rua, almoçar e jantar no mesmo dia é puro luxo".

"Se não fosse por Deus já teria desistido, caído em depressão ou pior. Porque são muitos os ataques, de todos os lados e o tempo todo. Isso afeta o psicológico e se não fosse pela fé, um desiste de lutar", sintetiza.

Pois a violência, seja policial ou dos próprios cidadãos, é um denominador comum entre a população sem-abrigo.

"As ações policiais e a hostilidade das pessoas são frequentes. Às vezes levam as tendas que estão na praça, às vezes agridem as pessoas", assegura Veloso.

Enquanto a cidade de São Paulo representa mais de 10% do total do PIB do país, o número de pessoas a viver em tendas de campanha -"domicílios improvisados", segundo a definição da Câmara- aumentou um expressivo 330% nos últimos dois anos.

"Antigamente era uma vergonha para alguém dormir na rua, hoje é normal. Muita gente perdeu tudo, entrou na miséria. Eu próprio sou um deles, passo fome e vivo de doações para me vestir ou comer", afirma Claudemir Canto.

Estudos mostram que, no Brasil, uma pessoa demora cerca de nove gerações para conseguir mobilidade social.

"Isto é, a pessoa que é pobre hoje está condenada a uma pena perpétua de pobreza", destaca o padre Júlio.

Para o religioso, que é frequentemente atacado e alvo de ameaças de morte por causa do seu trabalho, o cenário na cidade mais rica do Brasil já se tornou numa "verdadeira crise humanitária".

"Hoje em São Paulo há mais casas sem gente que gente sem casa", resume.

Por Nayara Batschke