EFEPorto

José Luís está prestes a fazer 50 anos. Vive na rua, no Porto. O seu sonho é um telhado sobre a sua cabeça e uma cama. Como ele, milhões de pessoas afogam-se na pobreza na Europa do século XXI.

"Já não confio nos políticos", diz José Luís Ribeiro. E ele tem as suas razões. Dorme nas ruas e vive da mendicidade.

Quando tem o suficiente, passa a noite numa pensão. O proprietário "faz-lhe um preço", 10 euros. 10 euros que fazem a diferença porque "um pouco de cama e um banhinho é a melhor coisa do mundo".

José Luís costumava trabalhar como padeiro, mas perdeu o emprego e foi encadeando contratos precários até ficar na rua.

Caso encontrasse algum dos líderes europeus que hoje estão no Porto para delinear a política social da década, pediria "uma casa e um emprego".

"Prefiro trabalhar do que receber uma prestação mínima, para ter as minhas coisas, para continuar integrado na sociedade.

Tal como José Luís, dezenas de sem-abrigo aguardavam ontem à noite o jantar oferecido pelos serviços sociais numa praça no centro histórico do Porto, muito perto da antiga Alfândega onde hoje se realiza a Cimeira Social, que irá definir os fundamentos do Estado Social para o futuro.

Uma cimeira da qual José Luís não ouviu falar. O resto também não. São os rostos da pobreza que os líderes europeus não irão ver no Porto.

O CORAÇÃO DO PORTO

"O coração da cidade" é uma ONG que serve agora 3.500 pessoas por semana no Porto. 70% mais do que antes da pandemia.

A sua sede está muito próxima da antiga Alfândega, que acolhe a cimeira europeia. A sua presidente, La Salete Piedade Santos, vai acompanhar a reunião "atentamente".

"Não sou pessimista, mas não creio que vá acontecer nada", lamenta. "Nada vai sair daqui porque as mentalidades são economicistas e a pobreza requer tempo, dinheiro e amor".

"Habituamo-nos a ver os pobres como se fossem apenas desalojados, mas a pobreza está agora dentro da porta. Estão os empobrecidos, aqueles que a pandemia empobreceu, e aqueles que a falta de vontade política para ter uma resolução da pobreza vá empobrecendo. Não existe uma política de resolução humanitária", denunciou numa entrevista com a Efe.

Esta ONG tem três veículos para recolher diariamente os restos que não foram vendidos nas grandes superfícies. "Só consigo que me entreguem 10% porque ainda não existe uma política que obrigue as grandes superfícies de alimentos a oferecer às organizações".

"Os bancos alimentares não resolvem o problema. Parece que vivemos num outro planeta", continua Santos. "Há cinco anos dávamos de comer a 1.200 pessoas sem abrigo por dia. Era um trabalho louco. Somos apenas voluntários, mas temos muito por fazer".

PORTUGAL E A EXPERIÊNCIA DA TROIKA

Portugal conhece bem as consequências das políticas de ajuste e austeridade aplicadas pela Europa. As receitas da "troika" durante a crise de há uma década permitiram reduzir o défice, mas com um custo social elevado mesmo para um país que se tornou num exemplo porque se esquivou às medidas mais agressivas e conseguiu avançar.

Justamente quando parecia estar a deixar a crise para trás -graças ao turismo e a uma política de incentivos ao investimento- a pandemia atingiu duramente o país.

E o legado da troika ainda pesa. Os impostos castigam a classe média, Portugal tem um dos salários mínimos mais baixos da Europa -665 euros- e sindicatos e organizações civis denunciam o impacto do ajustamento em capítulos básicos do modelo social, tais como a educação ou a saúde.

Após o golpe da pandemia, o défice subiu novamente acima dos 5%. Mas Portugal não quer voltar à medicina da troika e está empenhado numa "Europa social", diz o primeiro-ministro António Costa, anfitrião do encontro europeu do Porto.

O SONHO DE UMA EUROPA SOCIAL

Espera-se que o Porto dê um impulso ao plano de ação para o Pilar Europeu dos Direitos Sociais. Um ambicioso "guião" para reforçar o Estado Social.

O desafio é reduzir a pobreza em 15 milhões de pessoas -cinco milhões das quais crianças-, aumentar a taxa de emprego para 78%, proporcionar formação a 60% dos trabalhadores, combater as disparidades salariais entre géneros e o abandono escolar.

Um plano que requer um compromisso global e vencer a resistência de alguns Estados-membros, que olham com receio para a "interferência" do bloco e defendem o facto de as políticas sociais serem de âmbito nacional.

Alheio às discussões do "topo político", Diogo Conceição apela à igualdade entre todos os europeus, a começar pelos salários.

"Só em Portugal temos os salários mais baixos da UE. Se eles querem que sejam iguais, têm de começar a falar sobre isso", diz este taxista português, cético em relação ao resultado da cimeira.

La Salete Piedade Santos pede que o encontro europeu "não fique por um aperto de mãos".

"Eles têm capacidade de mudar tudo", enquanto "eu procuro desesperadamente oito horas por dia como alimentar estas pessoas", diz.

Uma luta que não conseguiu pôr fim ao seu otimismo: "Parece que não há futuro, e há futuro", conclui.

Por Mar Marín