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A abdicação de Juan Carlos I, em junho de 2014, deu os retoques finais a 39 anos de reinado e marcou um ponto de viragem na sua imagem, primeiro com a saída da vida pública, há um ano, e agora com a sua saída de Espanha, anunciada esta segunda-feira, diante de uma crise de descrédito devido a supostos negócios irregulares na Suíça.

Figura chave para a transição democrática do país, o ex-chefe de Estado passou a ser questionado pelo Governo e parte da classe política espanhola, enquanto aguarda a decisão dos procuradores do Supremo Tribunal sobre se há ou não motivos para instaurar inquéritos criminais contra si por crimes que terão sido cometidos após entregar o trono ao filho Felipe VI.

"SERVIÇO LEAL A ESPANHA"

Desde a abdicação, o rei emérito, de 82 anos, desempenhou um papel de liderança em eventos oficiais que levaram à sua decisão de terminar o trabalho institucional em junho do ano passado com uma carta enviada a Felipe VI.

"Chegou o momento de virar uma nova página da minha vida e completar a minha saída da vida pública", disse então o agora rei emérito.

Juan Carlos I amadureceu a decisão desde que completou 80 anos e depois da homenagem que lhe foi prestada no Congresso por ocasião do 40º aniversário da Constituição de 1978. Este foi o último grande ato do qual Juan Carlos participou. Este também aconteceu um ano depois do mal estar por não ter sido convidado para a comemoração dos 40 anos das primeiras eleições democráticas em Espanha após a ditadura franquista.

"Uma democracia que o meu pai promoveu de forma tão decisiva e determinante", elogiou Felipe VI em 2018 diante de um Congresso que, na sua maioria, aplaudiu prolongadamente Juan Carlos I.

Meses antes, quando o monarca emérito completou 80 anos, Felipe VI também lhe agradeceu por "tantos anos de serviço leal a Espanha".

SUSPEITAS DE NEGÓCIOS OCULTOS

Em meio desses acontecimentos, começaram a surgir suspeitas de negócios ocultos envolvendo Juan Carlos quando foi divulgada a gravação de uma conversa em que a empresária alemã Corinna Larsen, que foi amiga íntima do rei emérito, atribuía-lhe a verdadeira titularidade de contas em bancos na Suíça e o acusava de usá-la como testa de ferro.

Esse e outros escândalos levaram Felipe VI a distanciar-se do pai, abrindo mão da sua herança e retirando-lhe a remuneração paga pelo Estado espanhol em março, mas mantendo-o como membro da família real com o estatuto de rei.

Um ano e dois meses depois, a distância aumentou com a decisão do rei emérito de deixar Espanha, "guiado pela convicção de prestar o melhor serviço ao povo espanhol, às suas instituições" e ao próprio filho.

O distanciamento do seu filho também se refletiu nas suas aparições conjuntas, que se limitaram a algumas reuniões familiares, a última delas no funeral da sua irmã mais velha, Pilar de Bourbon, em janeiro deste ano.

Desde a abdicação, Juan Carlos tem estado mais concentrado na sua vida privada do que na sua vida pública, refugiando-se principalmente nos seus amigos e em hobbies como gastronomia, touradas e, especialmente, vela.

Assistiu por várias ocasiões a jogos de futebol nos estádios do Real e Atlético de Madrid, e de ténis, apoiando o amigo Rafa Nadal.

Juan Carlos também mostrou interesse pela Fórmula 1, embora, quando foi ao Grande Prémio de Abu Dhabi de 2018, tenha gerado controvérsia com o seu cumprimento ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed bin Salman, na época envolvido em acusações pelo assassinato do jornalista Jamal Khashoggi na Turquia.

Com a mobilidade física cada vez mais prejudicada, o ex-chefe de Estado voltou a ser hospitalizado em agosto de 2019 para ser submetido a uma delicada operação cardíaca que foi bem sucedida. Juan Carlos I foi visto pela última vez publicamente a 16 de junho, quando foi a uma clínica de Madrid para um check-up.