EFEPorto (Portugal)

"Acho que os cubanos merecem uma vida melhor e um Governo melhor", diz Ai Weiwei. O artista chinês, sempre comprometido com os direitos humanos, reaparece esta quinta-feira na cidade portuguesa do Porto com um novo motivo de luta, as alterações climáticas, embora sem deixar a política de lado.

"Com sorte vai levar a um progresso melhor, mais democrático", diz à Efe, acerca dos protestos em Cuba, o artista chinês, que apresenta esta quinta no museu Serralves do Porto novas peças para denunciar os riscos das alterações climáticas e o seu impacto, sobretudo na Amazónia brasileira.

"Ai Weiwei: Entrelaçar, Pequi vinagreiro, Raízes, Figuras humanas" é o título de uma exposição que se desenvolve tanto no interior do museu como nos seus jardins, ao longo dos quais se distribuem as obras mais impressionantes, como uma árvore de 32 metros que recria um exemplar da variedade Pequi, original do Brasil e em vias de extinção.

Uma obra que mostra um tronco seco que foi dividido em segmentos que depois foram transportados à China para serem soldados. Uma peça que demorou três anos a ser feita.

"Está 99% morta", explica Ai sobre a árvore, que mostra as consequências de não travar as alterações climáticas, cujos devastadores efeitos se puderam ver nas recentes inundações da Alemanha.

O artista, contudo, diz que a ameaça ainda não é evidente para todos.

"Acho que virão mais (desastres naturais). Vejo mais alterações climáticas radicais, as temperaturas elevaram-se dramaticamente e o resultado serão mais inundações, mais secas, mais fome e problemas novos" devido a um maior abismo entre pobres e ricos, afirma o artista, que acrescenta: "Pelo que o futuro não vai ser estável".

Na sua opinião, "perdemos gradualmente o equilíbrio entre humanos e ambiente".

"Vejo umas alterações climáticas dramáticas, vejo humanos a explorar a natureza por objetivos desnecessários", comenta, antes de destacar que, "ferindo a natureza, o ser humano fere-se a si próprio porque faz parte da natureza".

As reflexões de Ai Weiwei chegam depois de uma investigação no Brasil que o levou a explorar a sua biodiversidade e a alertar para as preocupações sobre o futuro, aspetos que aborda no trabalho exposto em Serralves, no qual também incide sobre o intercâmbio de culturas e da sexualidade.

A iminência do desastre atravessa a exposição, realizada com o apoio da Fundação La Caixa e onde os trabalhos atraem o mesmo número de flashes dos jornalistas que o próprio Ai Weiwei quando baixa o capuz da camisola ou cobre o rosto com uma folha.

Entre os jogos fotográficos do artista, que reside no Alentejo, vão surgindo as obras, como "Raízes", que mostra vários troncos de árvore cortados, também da variedade Pequi (original da Bahia), e deixa a vista o que se afunda na terra.

Para além da natureza do Brasil, a "sexualidade latente na cultura brasileira" é também alvo de estudo do artista chinês, segundo o museu.

É o caso de "Duas figuras", obra na qual se representa sobre um colchão o molde de uma modelo brasileira que jaz junto a outro molde, o do próprio artista.

Pode-se também ver a fotografia "Mutuofagia", na qual o artista aparece nu sobre um fundo de frutas tropicais como expressão de "dor e o prazer de dar uma mordidela à cultura de outro e de oferecer uma mordidela da própria cultura".

A exposição de Serralves acontece apenas um mês depois de Ai ter apresentado em Lisboa uma ambiciosa retrospetiva que não é vista como concorrência, segundo Rafael Chueca, diretor corporativo da Fundação La Caixa, pois, destaca à Efe, em questões culturais "não se compete, acrescenta-se".

Os trabalhos de Ai Weiwei expostos no interior do museu poderão ser vistos até ao próximo dia 5 de fevereiro, enquanto que as peças no exterior estarão até 9 de julho de 2022.

Por Cynthia de Benito