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Um Governo apoiado por um Movimento ao Socialismo (MAS) -partido do ex-presidente Evo Morales- "renovado" e com a intenção de "governar para todos" é o que Luis Arce, vencedor das eleições presidenciais do último domingo na Bolívia, promete implementar a partir da sua tomada de posse, conforme disse numa entrevista exclusiva à Agência Efe.

Arce, que confirmou a necessidade de dar lugar a profissionais e jovens com "compromisso" e setores sociais que não foram levados em conta, disse que não ignora Morales como "mentor" e "líder histórico" do seu partido, mas salientou que o novo Governo terá feição própria.

A contagem dos votos continua -de forma lenta- com Luis Arce já em primeiro lugar e à espera do resultado final, mas a sua vitória já foi reconhecida até mesmo pelos concorrentes nas urnas e grande parte da comunidade internacional com base nas sondagens à boca das urnas.

Agência Efe: Já conversou com Evo Morales (que está na Argentina)?

Luis Arce: Claro, conversei com ele, ele também estava feliz. Não tínhamos falado até ontem à noite. Estamos com agendas muito diferentes.

Efe: Qual é o estilo de Governo que pretende implementar?

Arce: O que vamos fazer no nosso Governo é incluir mais jovens, é um MAS 2.0, um MAS renovado, um MAS com mudanças que precisam de ser feitas. Precisamos de continuar com algumas coisas boas que fizemos, mas claro, precisamos modificar outras.

Efe: Num dos seus primeiros discursos, falou em redirecionar o "processo de mudança". O que significa isso?

Arce: Tem que haver muito mais comunicação com as organizações sociais, para que haja reuniões periódicas e permanentes.

Dar espaço a setores que no passado não tinham acesso ao instrumento, como profissionais e jovens. Melhor ainda, juntar profissionalismo e juventude.

Efe: Após os resultados desta eleição, ainda considera que Evo Morales é insubstituível?

Arce: Penso que temos que diferenciar a liderança do ex-presidente, porque sempre o teremos, o líder histórico, o mentor deste processo de mudança pelo qual a Bolívia tem passado desde 2006. Mas esta questão das eleições é outra coisa. Acredito que as eleições foram baseadas nas organizações sociais, na militância do MAS e no povo boliviano, que queria uma transformação.

Efe: A pergunta que se repete é se Evo Morales vai governar por trás de Luis Arce.

Arce: Isso foi inventado pelos partidos de direita para tirar os nossos votos, para tentar capitalizar sobre algumas pessoas que não gostam do camarada Evo, seja por ódio, racismo ou o que for.

Vai ser o meu Governo, e no meu Governo vamos fazer o país avançar.

Efe: Como vai reconciliar os bolivianos e mostrar que o MAS não estava relacionado com supostos atos de violência?

Arce: Com objetividade, simplesmente com objetividade. Quando é que o MAS entrou no Governo com violência? Nunca. Nós entramos com votos, em eleições, com democracia.

Efe: Como vai trabalhar para a reconciliação?

Arce: O que temos feito e dito desde o primeiro dia: vamos governar para todos. O nosso Governo será para todos. Nós não somos os violentos, não pagamos por um golpe de Estado.

Mesmo assim, entendemos que (os nossos opositores) são bolivianos e que já chega de lutar por questões e interesses estritamente pessoais ou grupais. Vamos construir todas as pontes necessárias para que possam ver que existe uma possibilidade de governar para todos.

Efe: Quem telefonou para o felicitar pela vitória?

Arce: Recebi chamadas de todo o mundo, inclusivamente do presidente Alberto Fernández, da Argentina, do presidente Andrés Manuel López Obrador, do México, do presidente (Daniel) Ortega, da Nicarágua, do presidente (Sebastián) Piñera, do Chile, do presidente Mario Abdo Benítez, do Paraguai, e de vários outros presidentes.

Efe: A política externa deve ser redirecionada? O que vai acontecer com as relações com Cuba, Venezuela, Irão?

Arce: Vamos restabelecer todas as relações. Este Governo (interino, de Jeanine Áñez, que assumiu o poder após a demissão de Evo Morales em novembro de 2019) agiu de forma muito ideológica, privando o povo boliviano do acesso à medicina cubana, à medicina russa, aos avanços na China. Devido a uma questão puramente ideológica, a população tem sido exposta de uma forma desnecessária e prejudicial.

Vamos abrir a porta para todos os países; a única exigência é que nos respeitem e a nossa soberania, nada mais. Todos os países, por maiores que sejam, que desejam um relacionamento com a Bolívia, a única exigência é que nos respeitemos mutuamente como iguais. Se for o caso, não teremos nenhum problema.

Efe: Qual é a mensagem de Luis Arce para a OEA, para a UE, para as Nações Unidas?

Arce: Para a OEA, temos muitas observações sobre o trabalho que têm feito aqui na Bolívia desde o ano passado. Dissemos isso claramente, e se esses erros não forem corrigidos, vamos continuar a observar tudo o que a OEA tem feito na Bolívia.

Efe: Quais serão as suas principais medidas económicas?

Arce: Vamos fazer um plano de industrialização com substituição de importações, vamos fazer um programa de segurança com soberania alimentar, promover o turismo interno, gerar os nossos processos de industrialização do lítio, do ferro de (o depósito de minério de El) Mutún, exportar energia elétrica, continuar com os nossos processos de industrialização do gás.

E vamos continuar com o nosso esquema estratégico de manter os recursos naturais nas mãos do Estado.

Por Gabriel Romano