EFEWashington

De se agarrar à Nintendo a esconder segredos da Inteligência nas fendas de um cubo de Rubik: a vida de Edward Snowden foi um salto do jogo à escapatória, uma aventura que agora mistura nas suas memórias com um apelo a "reivindicar os nossos dados" na era da Internet.

"Chamo-me Edward Joseph Snowden. Antes trabalhava para o Governo, mas agora trabalho para o povo. Demorei quase trinta anos em reconhecer que havia uma diferença, e quando o fiz, meti-me em mais do que um probleminha".

Assim começa "Permanent Record", um autorretrato do ex-técnico da Agência Nacional de Segurança americana (NSA) que sai esta terça-feira à venda em 23 países.

Seis anos depois de revelar os programas de vigilância em massa de telefones e internet da NSA, Snowden continua a ser um herói para uns e um traidor para outros, e as suas memórias dificilmente irão convencer alguém a trocar de lado.

Mas, para um americano que desde 2013 vive "exilado" em Moscovo, acolhido por um asilo temporário para esquivar o que -está convencido- não seria um julgamento justo nos EUA, contar a sua história é uma forma de "defender-se" dos seus críticos, de fazer exame de consciência e balanço do impacto das suas revelações.

"A decisão de me apresentar ao público com provas dos crimes do Governo foi mais fácil de tomar que a decisão, esta, de oferecer um relato da minha vida", assegura no prefácio.

Parte do livro de Snowden é uma carta de amor aos inícios da Internet, um meio que o fascinava mas que, afirma, acabou por se corromper pelo que define como o "capitalismo de vigilância": as tentativas do Governo e das empresas de "monetizar" a "conexão humana".

Essa deriva corroeu o que Snowden considera um "direito humano fundamental", a privacidade, que continua tão ameaçada agora como quando revelou os segredos da NSA: "Esse declive continuou, enquanto as democracias retrocederam para um populismo autoritário", lamenta.

A escapatória de Snowden começou quando tinha oito anos e os seus pais instalaram em casa o seu primeiro computador. "Desde que apareceu, o computador e eu fomos inseparáveis. Se antes já me mostrava reticente a sair e dar pontapés a uma bola, agora só ideia de o fazer passou a parecer-me ridícula", lembra.

Os videojogos da Nintendo e outras consolas reforçaram a sua paixão pelos ecrãs e afiaram uma mente tão afim à tecnologia que acabaria por seduzir as agências de inteligência dos EUA apesar de nunca ter conseguido um título universitário.

Mas foi um jogo analógico, um quebra-cabeças do século XX, que acabou por se tornar no talismã de Snowden e no seu aliado na missão de tirar do país e entregar à imprensa 1,7 milhões de arquivos da NSA: o cubo de Rubik.

Foi nesse quebra-cabeças cúbico onde o analista apoiava, durante a sua etapa como funcionário terceirizado da NSA no Havai, a cópia da Constituição na qual se inspirou para decidir que o que o seu Governo fazia violava os direitos dos americanos.

E foi entre as suas fendas onde escondia os cartões SD, usados normalmente em máquinas fotográficas, nos quais armazenava os segredos mais prezados da inteligência americana, que viajavam dentro do quebra-cabeças por todo o seu lugar de trabalho.

"Os guardas, e todo o mundo, conheciam-me no Túnel como o rapaz do cubo de Rubik, porque ia sempre pelos corredores a dar voltas a esses quadrados (...) Tornou-se no meu totem, no meu brinquedo espiritual e num dispositivo de distração", explica.

O Rubik permitiu, também, que fosse identificado no lobby de um hotel de Hong Kong pelos jornalistas a quem confiaria os dados, e umas semanas depois teve que resistir à tentação de tirar o quebra-cabeças para acalmar os nervos no voo que o levava ao que acreditava que seria só uma escala na Rússia rumo ao Equador.

Desde o que considera um "exílio" forçado na Rússia, Snowden assistiu a uma série de mudanças nos programas de vigilância americanos, mas considera-os insuficientes face ao crescente poder sobre os indivíduos de um regime virtual dominado pelos EUA e o "triunvirato imperial" formado pela Google, Facebook e Amazon.

"Atualmente, sejas quem fores, estejas onde estejas, em termos corpóreos e físicos, encontras-te também por todas partes, estás em circulação", alerta.

Embora a geração nascida depois de 2000 lhe inspire "esperança", o diagnóstico de Snowden é pessimista e os seus avisos são urgentes: "Se não atuamos agora para reivindicar os nossos dados, os nossos filhos talvez não tenham a capacidade de o fazer", conclui.

Lucía Leal