EFELisboa

O treinador do Braga, Carlos Carvalhal, não quer ser parecido a ninguém, o seu estilo é transgressor e confia mais no conceito do que nos sistemas de jogo. É um filósofo vanguardista do futebol que confessa que adoraria treinar João Félix. Pela sua família, recusou treinar o Flamengo.

Passou pela Premier League e ligas de países como a Turquia, Grécia ou Emiratos Árabes; na última época, depois de regressar a Portugal, conseguiu meter o Rio Ave nos lugares da Liga Europa.

O desafio passa pelo que o Braga se consolide em lugares da Champions e competir contra Benfica, Porto e Sporting.

Numa entrevista com a Agência EFE, reconhece que o seu estilo passa por "pôr os jogadores a pensar, já que as pernas sem o cérebro não servem de nada".

Na sua etapa de jogador partilhou quarto com Paulo Futre na seleção de Portugal e esta época terá a missão de catapultar o jovem Abel Ruiz, futebolista de 20 anos formado nas escolas do Barcelona que se tornou na contratação mais cara do futebol português.

Pergunta: Um treinador diferente, com estilo único.

Resposta: O nosso estilo passa pelos neurónios, pôr os jogadores a pensar, o músculo que mais temos que desenvolver nos nossos jogadores é o cérebro. As pernas sem o cérebro não servem de nada. Gostamos do bom futebol, associativo. Não é ganhar por ganhar, porque é necessários jogar bem para ganhar. Quem paga bilhete quer ver bom futebol.

Estudei na faculdade de Desporto de Porto ao mesmo tempo que jogava futebol e com o meu professor, Vítor Frade, criei naquele momento -há 22 anos- uma ideia totalmente transgressora, com treinos que nunca tinha vivido na minha carreira (como futebolista).

P: Dentro do campo, foi mais feliz como jogador ou agora como treinador?

R: Sinto-me mais realizado agora como treinador. Sempre tive algo de treinador dentro de mim. Questionava sempre tudo, os meus treinadores, todos, e queria saber o porquê de tudo, daí que tenha também estudado filosofia. Como jogador, fui um futebolista não muito técnico que não consegui jogar o futebol que tinha na minha cabeça.

P: Prefere o conceito aos sistemas de jogo.

R: Um sistema pode ser muitas vezes uma limitação para a dinâmica individual e coletiva de uma equipa. Um exemplo, na última época, quando treinava o Rio Ave, a lateral esquerda era muito ofensiva e defendia mal. E no final da época, a defesa esquerda sabia jogar numa linha de quatro, de três, sabia atacar, defender, juntar-se ao ataque e equilibrar a equipa pelas zonas interiores, etc... Fazia muitas mais coisas.

P: Tem na sua pele o ADN do Braga.

R: Nós, quando vamos a um clube, vestimos a pele do clube. Mas, na realidade, o Braga é o clube que me representa. Joguei no futebol base do Braga desde os 11 anos, percorri todas as equipas, fui treinador e agora volto a um Braga bem mais evoluído e eu também tenho evoluído muito. Vai funcionar bem, porque o Braga e eu estamos num período de maturidade.

P: Abel Ruiz, Fábio Martins, Horta, Nico Gaitán. Como vai jogar o Braga?

R: É impossível jogar desde o primeiro dia baseado em conceitos, seria um suicídio. A nossa proposta tem uma base de jogar com três atrás, dois médios, dois pelas alas e três avançados. Essa é a base e a partir dela iremos evoluindo.

P: Por que não aceitou a oferta de treinar o Flamengo?

R: O meu objetivo era voltar a Inglaterra, embora também teria gostado de treinar em Espanha. Nesse momento veio a pandemia. E com uma possível segundo vaga de Covid não queria estar a trabalhar fora e não ver a minha família. E depois de um jogo contra o Marítimo, ao regressar a casa de madrugada, sofri um assalto, com três pessoas que me assaltaram à porta de casa, e isso criou instabilidade na minha família. Este último, sobretudo, foi decisivo para não sair para o estrangeiro. Veio o Flamengo, é o melhor clube de América do Sul, mas tive que dizer que não por causa da minha família. Já estive na Grécia, Emirados Árabes, Inglaterra ou Turquia e nunca viajei contra a vontade da minha família.

P: Abel Ruiz.

R: É um rapaz um pouco introvertido que chegou ao Braga na temporada passada, com a pandemia passou um período não muito bom para ele. Agora está-se a adaptar à equipa e aos seus colegas e é um jogador que tem uma capacidade para o jogo associativo. A nossa exigência para com ele é muito alta em matéria de trabalho defensivo, de mobilidade, e está a evoluir muito bem. O Abel ruiz da primeira semana e o Abel Ruiz cinco semanas depois é um jogador completamente diferente. Está a fazer tudo muito bem.

P: Horta e Fábio Martins

R: Sobre Fábio Martins, quando assinei, o presidente disse-me que não contássemos com ele porque há ofertas muito boas a nível económico. Então, o jogador está no mercado e acho que o Braga fará uma boa venda. E sobre Ricardo Horta é um jogador fantástico, com uma mobilidade incrível, rápido e com um remate muito potente, acima da média. Vou tentar que seja um dos melhores marcadores do campeonato e que seja chamado pela seleção nacional.

P: Treinar em Espanha?

R: Adorava. A nossa filosofia de treinos está bem perto de Espanha. Conheço muito bem a Liga de Espanha. Não vou revelar o clube, mas estive a um ponto de ir treinar um clube da Galiza.

P: Algum clube espanhol que desejaria treinar?

R: O Atlético de Madrid, porque na seleção de Portugal fui colega de quarto (nas concentrações) de Paulo Futre e tenho uma amizade com ele, e queria sempre que o Atlético ganhasse. Depois, quando Mourinho, Figo, Ronaldo, chegaram ao Real Madrid desejava que este ganhasse. E o Chaves, onde joguei por empréstimo com 18 anos, usava as mesmas cores que o Barcelona e sentíamos que jogávamos com o mesmo equipamento que o Barcelona.

P: Melhor jogador que treinou e o que gostaria de treinar.

R: Não me esqueço de dois jogadores que tive no Sporting: Izmáylov e João Moutinho. Adoraria treinar João Félix, porque é um jogador fascinante, vai muito bem entre linhas, liga-se muito bem com o avançado, poderíamos fazer dele um dos 4 ou 5 melhores jogadores do mundo.

Por Carlos García