EFELisboa

Lisboa deu esta segunda-feira uma viragem à direita com a tomada de posse do novo autarca, o conservador Carlos Moedas, que estreia um Governo minoritário na capital após 14 anos de gestão socialista com uma longa lista de desafios e obrigado a pactuar com a esquerda, maioritária na Câmara.

"Lisboa tem que ser uma casa que todos sintam com sua", disse hoje durante o seu discurso de tomada de posse, no qual avançou uma gestão centrada nas "pessoas", com a redução dos impostos municipais entre as suas medidas principais.

Contra todas as previsões, Moedas, do conservador Partido Social-Democrata (PSD), impôs-se com 34,25% dos votos nas eleições municipais de setembro, apenas um ponto sobre o ex-autarca Fernando Medina.

Mas não será fácil. A sua coligação, "Novos Tempos", obteve sete vereadores; o mesmo que o "Mais Lisboa", que com Medina à frente conseguiu 33,33% dos votos; o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda compartilham os três restantes.

É por isso que hoje ressaltou que se considera um "homem de consenso" com capacidade para negociar e trabalhar com outros partidos. E piscou o olho aos socialistas, agradecendo um impecável processo de transição e estendendo a mão ao Governo de António Costa.

DE MINISTRO DA TROIKA AO "NOVO TEMPO" PARA LISBOA

Engenheiro e filho do histórico jornalista comunista, Moedas (Beja, 1970), entrou na política pelas mãos do antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho (2011-2015), que além disso também acompanhou de perto a estratégia eleitoral que o levou à vitória.

Estreou-se como secretário de Estado adjunto de Passos Coelho e ganhou protagonizou durante a crise de uma década atrás como negociador dos ajustes, altura em que ficou conhecido como o "ministro da troika".

Saltou para a Europa como comissário de Investigação, Ciência e Inovação e cinco anos depois regressou e encontrou refúgio na Fundação Calouste Gulbenkian.

A sua inesperada vitória, por apenas 2.000 votos contra Medina, respondeu mais ao desgaste dos socialistas -que perderam 25.000 votos em Lisboa- que ao avanço da direita, mas significou um balão de oxigénio para o PSD, que mede já as suas opções para as próximas eleições presidenciais.

Por isso, ex-presidentes, ex-primeiros-ministros e dirigentes do PSD apoiaram-no na tomada de posse, que também contou com convidados especiais, como o autarca de Madrid, José Luis Martínez-Almeida.

Agora terá pactuar cada uma das decisões importantes da sua gestão e demonstrar a sua experiência como negociador.

"Vou trabalhar de forma incansável para gerar consensos", disse hoje. "São precisos compromissos em que todos cedam pelo bem geral".

DESCIDA DE IMPOSTOS, HABITAÇÃO E TRANSPORTE COMO PRIORIDADES

Moedas assume o Governo do maior município do país, com cerca de 550.000 habitantes, um orçamento superior aos 1.150 milhões de euros e quase 10.000 funcionários.

A sua missão, disse, é "ajudar o povo de Lisboa". E para o conseguir, pretende baixar os impostos municipais, reduzir a burocracia, impulsionar o investimento e modernizar a cidade com um modelo de "fábrica de empresas", uma mistura de inovação e emprego.

A habitação será outro dos seus eixos. Na sua campanha prometeu facilitar o aluguer para jovens e famílias a fim de impedir a expulsão de milhares de lisboetas dos seus bairros.

A população de Lisboa diminuiu 1,5% na última década devido à escalada do mercado imobiliário. Em contraste, a sua área metropolitana está a crescer e tem já mais de 2,8 milhões de habitantes.

O transporte será outro dos seus grandes desafios. Mais de 425.000 pessoas viajam diariamente para estudar ou trabalhar em Lisboa e cerca de 47.000 saem da cidade.

Como aliviar o congestionamento do trânsito e a poluição? Moedas não adiantou grandes soluções, embora prometa baixar as tarifas de estacionamento nas ruas e melhorar a ligação da periferia ao centro da cidade através de transportes públicos.

Os seus planos para as ciclovias também são controversos. Moedas apoia a mobilidade em bicicleta, mas irá rever a rede para a tornar "segura e equilibrada".

O novo autarca também quer que Lisboa esteja mais presente na Europa. E procura a cumplicidade dos lisboetas: "Andarei sempre pelas ruas para ouvir as pessoas".

Por Mar Marín