EFEPorto

A Cimeira Social do Porto deixou imagens para recordar, e não só por causa dos compromissos alcançados. Os líderes europeus encontraram-se cara a cara durante dois dias, partilharam uma longa sobremesa e falaram para centenas de jornalistas. Uma mudança marcante após um ano de pandemia.

Reunir 24 dos 27 chefes de Estado e de Governo da UE para uma cimeira de dois dias em tempos de covid confirma o empenho do bloco de recuperar progressivamente a normalidade.

É também a primeira vez no último ano que a imprensa tem acesso ao local da cimeira e os líderes europeus conversam abertamente com jornalistas no recinto.

Desde fevereiro de 2020, antes das restrições induzidas pela pandemia, houve oito reuniões de alto nível através de videoconferência e quatro cimeiras presenciais em formato limitado, com conferências de imprensa online, incluindo a "super cimeira" de cinco dias em julho em Bruxelas para aprovar o plano histórico de recuperação e o orçamento de 1,82 biliões de euros.

Mas o caminho ainda é longo.

As delegações oficiais são muito reduzidas e as três ausências de líderes da cimeira foram justificadas pela situação da pandemia: a chanceler alemã Angela Merkel; o primeiro-ministro dos Países Baixos, Mark Rutte; e o de Malta, Robert Abela.

Abela, segundo a organização, não pôde viajar para o Porto no último minuto por causa de um caso positivo no seio da família.

PCRs E SCANNER DE TEMPERATURA

O acesso às sedes da Cimeira só é permitido com um teste PCR negativo realizado nas 72 horas anteriores. O uso de máscara é obrigatório e há muitos avisos para manter a distância.

Para facilitar a mobilidade dos participantes, tanto das delegações como dos jornalistas, é possível fazer o PCR ou um teste de antígenos por conta da organização antes de regressar ao país de origem.

Além disso, um scanner facial mede a temperatura à entrada dos locais oficiais e uma equipa de jovens ocupa-se de distribuir máscaras cirúrgicas e recordar que o nariz deve também ser tapado.

Nas salas habilitadas para as aparições dos líderes europeus foram colocadas poucas cadeiras, e espaceadas, para os jornalistas. No centro de imprensa, os assentos são também individuais e separados.

As distâncias são ainda mantidas em reuniões de alto nível, e os líderes europeus têm entre si separadores transparentes que lhes permitem remover as suas máscaras sem risco.

Na sexta-feira à noite até partilharam um longo jantar à porta fechada organizado pelo Conselho Europeu que durou até madrugada devido ao debate sobre uma das questões mais espinhosas para o bloco comunitário: a pandemia e as patentes de vacinas.

"PROCURAR UMA MULHER NA SALA"

O evento do Porto é também a primeira reunião dos 27 após o chamado incidente do "sofagate", quando a presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, foi relegada para segundo plano durante uma visita à Turquia.

Os organizadores foram particularmente cuidadosos com o protocolo nesta ocasião, mas a lacuna de género é ainda muito marcante na Europa do século XXI.

As imagens falam por si.

Von der Leyen a falar a um público só de homens; Von der Leyen a única mulher no balcão da Câmara Municipal do Porto com cinco homens; Von der Leyen sozinha entre oito homens após a assinatura do compromisso social europeu.

Um compromisso que, a propósito, tem entre os seus objetivos a promoção da igualdade de género e a redução da discriminação salarial sofrida pelas mulheres na região.

Este tornou-se rapidamente tema nas redes sociais. "Vamos jogar ao 'encontra uma mulher na sala'"; "para equilibrar a imagem ainda há muito a fazer", escreveram algumas utilizadoras do Twitter.

O debate não se limita às redes sociais. Entre os parceiros europeus existem também diferenças que são difíceis de explicar, como o desconforto da Hungria com a utilização do termo "género" na declaração final.

À sua chegada à cimeira, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, não hesitou criticar o assunto, apesar das suas reservas não terem impedido o acordo.

Situações que surpreendem a primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin, que disse na sexta-feira que "é bom ouvir os homens, na Finlândia todos os ministros são mulheres".

Por Mar Marín