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Os trabalhos preliminares para a exumação dos restos mortais de 77 pessoas nas criptas da basílica do Vale dos Caídos, um monumento da ditadura franquista localizado perto de Madrid, começaram esta segunda-feira no âmbito de um processo que o Governo espanhol considera o mais complicado dos realizados até agora no país.

O Ministério da Presidência e da Memória Democrática descreveu o processo de exumação como "o mais complexo" do seu género em Espanha e que irá demorar "muito tempo devido ao estado das criptas".

Mesmo que se consiga a entrada nas criptas, a localização dos restos mortais que se procuram não está garantida, pois "mais de sessenta anos depois das trasladações as dificuldades são muito grandes", mesmo tendo "todos os meios e os melhores especialistas", apontou o ministério em comunicado.

A entidade estatal Patrimonio Nacional, da qual depende o local, autorizou o trabalho na sequência de um pedido dos familiares destas pessoas.

O trabalho consiste na instalação da infraestrutura técnica necessária e na organização das equipas humanas que irão realizar a tarefa. O trabalho inicial dedica-se à preparação dos acessos às criptas depois de se assegurar as estruturas arquitetónicas.

Segue-se depois a intervenção forense na busca dos corpos e a correspondente análise genética para identificação, a adaptação dos columbários e a melhoria das condições de conservação dos restos, juntamente com uma "dignificação geral" das criptas, segundo o ministério.

Esta exumação faz parte da "ressignificação global do monumento" do regime franquista, cuja "forma jurídica" está incluída num projeto de lei sobre memória democrática que está a ser gerido pelo parlamento espanhol, de acordo com a nota.

Em março passado, o Governo espanhol aprovou uma verba de 650.000 euros para exumar e identificar restos mortais enterrados na cripta que eram reivindicados pelas suas famílias há diversos anos.

Um tribunal reconheceu em 2016 aos familiares de dois irmãos que foram fuzilados em 1936 e aí enterrados em 1959 o direito de recuperar os seus restos mortais, embora há uma semana um filho e sobrinho que tinha solicitado as exumações tenha morrido aos 97 anos de idade.

De acordo com um censo oficial, o Vale dos Caídos alberga os restos mortais de 33.833 pessoas, quase metade das quais não identificadas, de ambos os lados da Guerra Civil espanhola (1936-1939), que foram levados para lá entre 1959 e 1983 desde sepulturas e cemitérios de diferentes partes de Espanha.

O Vale dos Caídos, que inclui uma basílica católica com uma grande cruz e uma abadia, foi construído entre 1940 e 1958 principalmente por prisioneiros do lado republicano que foi derrotado pelo chamado lado nacionalista, e até 2019 albergou os restos mortais do ditador Francisco Franco, que ordenou a construção do local, que a nova lei pretende transformar num cemitério civil que preste homenagem às vítimas de ambos os lados.