EFELisboa

Esculturas modernas que observam os visitantes e obras de realidade virtual no meio de uma sala atapetada num antigo palácio neoclássico. É a recente exposição do espanhol Damià Díaz, que leva o seu olhar a Lisboa para abordar um diálogo entre o passado e o contemporâneo.

"O Caminho do Olhar", o nome da exposição, não podia ter um palco de maior envergadura: o Palácio Nacional da Ajuda, uma construção do século XIX que serviu de residência real e que agora, reconvertido em museu, mantém a sua imponente sumptuosidade de tapeçarias, murais e coleções artísticas.

No meio deste cantinho do passado foram instaladas sete esculturas de resina pintada e cerâmica e outras duas obras de realidade aumentada que, longe de parecer fora de lugar, integram-se com o espaço.

Díaz (Alicante, 1966), um artista multidisciplinar mais conhecido no exterior que na sua Espanha natal, projetou a maior parte das peças especificamente para esta exposição na Ajuda, um trabalho mais desafiante que expôr numa sala neutra, como o próprio reconhece.

"Aqui tens que dialogar e ganhar o contraste. A pele deste edifício, as paredes, contam histórias com a sua decoração e o seu mobiliário. Não podes lutar contra isso. Tens que te aliar com eles para que acentuem a divulgação da tua peça, ou pelo menos, o caráter narrativo da mesma", afirma Díaz numa entrevista com a Efe.

É o que acontece, por exemplo, com "Despacho", uma escultura com forma humana em resina cromada inserida numa mesa de madeira lacada na qual toda a decoração da sala, onde o rei assinava documentos oficiais, é vista através dos reflexos na sua superfície.

Díaz é o primeiro artista espanhol convidado a intervir no Palácio da Ajuda, com um projeto de uma magnitude que não se via neste espaço desde uma exposição de Joana Vasconcelos em 2013.

Na exposição, na qual a figura humana tem um papel central, o próprio autor deixa patente o seu olhar com os dois auto-retratos que abrem e fecham o percurso: "Desarraigo" e "El observador".

É desde esta última peça que Díaz "nos observa ao final da exposição, após esse deambular pelas salas, para ver qual é a nossa avaliação", explica Lucía Ybarra, co-comissária da exposição, junto a Rosina Gómez-Baeza.

Além de explorar diferentes materiais, o artista aposta por procurar novas linguagens através da tecnologia, com duas obras de realidade aumentada e uma aplicação que permite que os visitantes usem os seus telemóveis para interagir com as peças de Díaz projetadas sobre as salas da Ajuda.

"A realidade aumentada é uma técnica que vem de outros elementos e que eu usei para aceder a espaços expositivos onde pelas caraterísticas protocolares do edifício não se podia aceder, mas apetecia-me que houvesse uma peça minha e utilizar um vocabulário novo", conta.

Assim, ao chegar à Sala do Trono, o visitante pode ver através do seu ecrã três peões com forma humana a planar um metro acima do solo, algo que o artista define como "um elemento de apropriação acordado com o público".

A aposta por novas linguagens e novas tecnologias é necessária para Díaz, que considera que a dinâmica no mundo da arte "está a mudar muito", pelo que é preciso adaptar-se à sociedade.

"Não se pode ter o título de artista contemporâneo e não ser contemporâneo. A sociedade mudou, do ter ao usar, da propriedade à experiência, e creio que a arte tem que se adaptar a esses meios", diz.

A exposição, que estará aberta ao público até ao dia 17 de dezembro, faz parte da programação da Mostra Espanha 2019, o certame bienal que leva a cultura espanhola a Portugal, e representa a estreia do autor em Portugal.

Díaz já exibiu a sua obra em cidades como Paris, Mont de Marsans (França), Hamburgo (Alemanha), Amsterdão, Maastricht (Holanda) e Bruxelas, entre outras.

Paula Fernández