EFEBarcelona (Espanha)

Dois estudos publicados esta quinta-feira pela revista "Science" indicam que 14% dos infetados por coronavírus que manifestam sintomas graves possuem deficiências imunológicas que podem ser causadas por fatores genéticos ou de origem autoimune.

De acordo com uma das investigações, liderada pela Universidade Rockefeller, de Nova Iorque, e pelo Hospital Necker for Sick Children, de Paris, 10,2% de um total de 987 pacientes com pneumonia grave causada pela COVID-19 apresentavam, no início da infeção, anticorpos que bloqueavam a ação das glicoproteínas conhecidas como interferons (IFNs) tipo I.

Os IFNs são produzidos pelas células humanas e têm função determinante na defesa do organismo, interferindo na replicação celular dos patógenos.

Isso significa que o próprio sistema imunológico do indivíduo impede uma resposta adequada contra o vírus e, além disso, poderá explicar a maior vulnerabilidade de homens e de pessoas com mais de 65 anos, o que justifica, em parte, que a resposta individual ao SARS-CoV-2 varie tanto de pessoa para outra.

Os investigadores identificaram que, em alguns casos, os anticorpos contra os interferons tipo I foram detetados em amostras de sangue recolhidas antes dos pacientes serem contaminados pelo patógeno e, em outros, foram encontrados pela primeira vez nos estágios iniciais da COVID-19.

Dos 101 pacientes que apresentaram esses anticorpos, 95 eram homens, o que sugere a presença de algum fator genético que, de certa forma, poderá favorecer o aparecimento desse fenómeno em indivíduos do sexo masculino.

Nesse sentido, a hipótese "favorita" dos cientistas é a de que as mulheres estarão mais protegidas contra este fator autoimune devido à recessividade do cromossoma X (XX), ao contrário dos homens (XY).

Uma prova que deu força a esta teoria foi o caso de uma das mulheres que participou no estudo, que possui uma rara condição que silencia um dos cromossomas X e estava entre os pacientes em estado grave e com anticorpos contra os IFNs tipo I.

Por outro lado, cerca da metade dos pacientes que possuíam os anticorpos tinha mais de 65 anos, enquanto, entre os mais jovens, o índice foi de apenas 38%, o que pode indicar um aumento desse fator imunológico com a idade.

O estudo também investigou a presença desses anticorpos num grupo de controlo com pacientes assinomáticos ou com sintomas leves, e nenhum deles apresentou esses anticorpos. Apenas 0,33% das mais de 1.200 pessoais saudáveis analisadas testaram positivo.

A descoberta vai permitir identificar quais as pessoas infetadas pelo coronavírus Sars-CoV-2 que têm maior probabilidade de desenvolver sintomas graves e facilitar a adaptação de tratamentos dos portadores de anticorpos contra IFNs tipo I.

MUTAÇÕES GENÉTICAS AGRAVAM INFEÇÃO DE CORONAVÍRUS

A outra investigação publicada esta quinta-feira pela Science também encontrou falhas genéticas que resultaram em respostas inadequadas dos interferons nos infetados por coronavírus.

O estudo, que contou com a participação de hospitais espanhóis, sequenciou o ADN de 659 pacientes hospitalizados com pneumonias graves causadas pelo SARS-CoV-2, e também formou um grupo de controlo com 534 infetados assintomáticos ou com sintomas leves.

Os investigadores procuraram diferenças entre os dois grupos através da análise de 13 genes conhecidos por impactarem a produção e também a ação de interferons tipo I, quando apresentam falhas.

Segundo as análises, 3,5% dos doentes em estado grave apresentaram raras alterações em oito dos 13 genes, com mutações. Além disso, nos pacientes que tinham amostras de sangue disponíveis, foi possível comprovar números extremamente baixos de interferons.

Enquanto isso, nenhum dos integrantes do grupo de controlo apresentou alterações genéticas.

"Durante os últimos 15 anos, mutações nesses 13 genes já foram descritas em casos específicos e excepcionalmente graves de outras infeções virais, como gripe ou encefalite causada pelo vírus da herpes", explicou o integrante do grupo de investigação em imunologia do instituto Vall d'Hebron (VHIR) de Barcelona, Roger Colobran.

"O que nos surpreendeu neste estudo é a alta frequência com que encontramos essas alterações em pacientes com COVID-19 grave", acrescentou Colobran.

Por sua vez, a geneticista do Instituto de Investigação Biomédica Bellvitge (Idibell), Aurora Pujol, afirmou que "agora que sabemos uma das causas moleculares de alguns jovens terem desenvolvido formas graves da doença, será possível adaptar as opções terapêuticas, como o tratamento com interferons".

Segundo Pujol, a lista de mutações descoberta também pode ser relevante para o combate a outros vírus e tende a crescer à medida que mais estudos sejam conduzidos.

"Pacientes com COVID-19 com maus prognósticos e que não apresentam nenhuma dessas alterações podem ter alguma patologia anterior não diagnosticada ou outras suscetibilidades genéticas que causam uma resposta imune incorreta", esclareceu a especialista.