EFEVila Real/Sevilha (Portugal/Espanha)

Como tratar o stress infantil? Quando falar de sexo com os filhos? As dúvidas que assolam os pais multiplicam-se. Agora podem consultar especialistas a partir de casa através de um projeto partilhado entre Espanha e Portugal. Uma "escola para pais" num clique.

"É importante que os pais saibam. Os bebés não trazem um manual de instruções", explica António Pina, especialista da Administração Geral de Saúde do Algarve (sul de Portugal).

"Os pais são a chave do futuro dos seus filhos, e não tínhamos uma escola para pais, mas com esta plataforma pela internet é possível ajudar", assegura.

Pina refere-se à "Janela Aberta à Família", um projeto de ajuda parental através de internet e mensagens ao telemóvel estreado no Algarve em 2007, semente plantada pela Rede Ibérica de Promoção da Saúde Infantil (RISCAR), que em 2013 começou a adicionar outras regiões portuguesas e as regiões espanholas da Andaluzia, Galiza, Estremadura e Castela e Leão.

Esta ambiciosa iniciativa conta com um orçamento total de 2,4 milhões de euros, 1,8 milhões destes fornecidos pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) dentro do Programa de Cooperação Transfronteiriça Interreg Espanha-Portugal (POCTEP).

Trata-se, explica o site "Janela Aberta à Família" do Governo da Andaluzia, de uma plataforma de comunicação entre as famílias e o sistema público de saúde em cada uma das zonas onde foi implementada.

No caso andaluz, além disso, a partir do serviço "Salud Responde", gera-se uma agenda de saúde personalizada, "em função das necessidades da família" e do "momento evolutivo da criança", aponta o psicólogo Antonio Garrido, assessor na área de Saúde no Governo da Andaluzia.

O seu objetivo é ajudar as famílias no cuidado e educação dos filhos. O seu impacto é impressionante, com dezenas de milhares de utilizadores de ambos lados da fronteira.

DESDE A GRAVIDEZ A MAIORES DE IDADE

A fórmula é simples e dinamiza-se através dos trabalhadores de saúde dos centros de cuidados primários, encarregados de informar sobre a existência desta plataforma. Enfermeiras e parteiras, tais como a portuguesa Patrícia Jerónimo, desempenham um papel crucial.

Patrícia acompanha o projeto desde as suas origens, em 2007. Trabalha como parteira no centro de saúde de Vila Real de Santo António (Algarve) e conta orgulhosamente que a maioria das futuras mães a quem ela fala do projeto têm o maior prazer em aderir.

Os interessados inscrevem-se no programa, recebem um guia, podem consultar o website e aceder, quer por telemóvel ou internet -via e-mail ou Facebook- a indicações de profissionais que acompanham o desenvolvimento dos seus filhos.

A informação abrange desde os cuidados de gravidez até ao nascimento do bebé e a sua evolução até aos 18 anos de idade.

Além disso, os pais podem solicitar conversas por videoconferência periódicas com técnicos de saúde, fazer perguntas personalizadas que serão respondidas por profissionais e poupar visitas ao centro de saúde ou preocupações desnecessárias.

Uma das grandes vantagens, sublinha Patrícia, é que as famílias recebem informações adequadas à idade dos seus filhos até atingirem a maioridade.

"Há momentos de desenvolvimento evolutivo com especial sensibilidade sobre certos aspetos", acrescenta Antonio Garrido.

E especifica alguns dos períodos que mais suscitam dúvidas nos pais: o nascimento, a mudança que as crianças experimentam aos dois anos de idade, a adolescência…

Os tópicos são muito amplos. Desde a alimentação, ao calendário de vacinação, atividade física, saúde emocional, educação sexual…

Tudo num clique.

AJUDA EM TEMPOS DE PANDEMIA

"Desde o início que era claro para nós que o caminho era a Internet, que nos permitiria comunicar com as pessoas e ligá-las à saúde pública", recorda António Pina.

Mas agora, no meio de uma pandemia que encurrala o mundo, "se o projeto não tivesse existido, teríamos tido de o criar", diz este especialista português.

Ter a possibilidade de consultar profissionais sem sair de casa impulsionou o reconhecimento deste programa e as questões relacionadas com o vírus.

"Os regulamentos sobre o confinamento, recomendações sobre o uso da máscara", explica Patrícia Jerónimo, são algumas das buscas mais frequentes há vários meses.

"Esta situação torna o programa ainda mais valioso", garante.

O impacto da pandemia nas crianças e adolescentes é precisamente um dos assuntos mais preocupantes para a espanhola Mercedes Díaz, diretora da revista Infancia y Salud (RINSAD), editada pela Universidade de Cádis, que é uma das propostas mais atrativas do programa e uma das ferramentas mais úteis para os pais.

Publicada em espanhol, português e inglês, a revista centra-se na divulgação de artigos científicos relacionados com a saúde das crianças.

Um dos seus últimos números é inteiramente dedicado à obesidade infantil, uma doença que tem sido agravada pela ansiedade e pelo confinamento durante a pandemia.

A perda de sono, o aumento dos estilos de vida sedentários e o número de horas que as crianças passam frente à televisão ou computadores e uma dieta pobre multiplicaram a incidência da obesidade.

Por esta razão, Díaz insiste, "recomendamos que as crianças sigam a sua rotina, tomem três refeições por dia". E sublinha um elemento que muitos pais desconhecem: é necessário cuidar especialmente da sua dieta até aos cinco anos de idade; depois disso, explica, há um "ressalto adiposo" que pode desencadear o problema.

Os adolescentes são também um foco de preocupação na pandemia. "A deterioração é tremenda", adverte a especialista. E alerta para o risco de se "agarrarem" às redes sociais, "ludomania" e mesmo "o terrível problema do suicídio", a terceira principal causa de morte neste grupo populacional.

"Estamos a esquecer que o impacto da pandemia será muito pior nos adolescentes e nas pessoas muito idosas", lamenta.

DAS MÃOS DOS PROFISSIONAIS

Daniela Lampreia não tem dúvidas sobre os benefícios do RISCAR. Esta jovem portuguesa inscreveu-se no programa no centro de saúde de Vila Real após o nascimento do seu primeiro filho, Martin. O pequeno tem agora sete anos e uma irmã de oito meses, Francisca.

Daniela juntou-se à iniciativa quando estava grávida de Martin. Recebeu aconselhamento e um guia para a ajudar ao longo do processo.

"Após o nascimento, nos primeiros dias e durante a amamentação. Esses foram os períodos em que mais precisei de ajuda", confessa. E encontrou-a na plataforma.

O mais importante, continua, "é a segurança de recorrer a uma fonte profissional, sabemos que a informação é verdadeira". Um valor fundamental em tempos de desinformação online.

Patrícia Jerónimo concorda. Muitos utilizadores aderem ao programa assim que se tornam mães, embora, assinala, seja possível registar-se em qualquer altura, independentemente da idade das crianças. Basta terem menos de 18 anos.

"As crianças são todas diferentes, mas já existem padrões definidos em termos físicos e psicológicos e os pais devem conhecê-los. É importante que o saibam", acrescenta Pina.

OBSERVATÓRIO IBÉRICO DE SAÚDE, O DESAFIO DO FUTURO

Uma vez avançadas as etapas iniciais, o grande desafio do programa é a criação de um Observatório Ibérico Transfronteiriço de Saúde Infantil, Juvenil e da Família. Uma ideia que se tornará realidade no próximo outono.

"É um instrumento para monitorizar o estado de saúde das crianças de ambos os lados da fronteira", explica Antonio Garrido, um dos promotores da iniciativa.

Um instrumento que permitirá analisar "todos os fatores que afetam a saúde infantil, entendidos num sentido amplo, e não apenas como a ausência de doença", ou seja, considerando o contexto familiar e urbano e os indicadores que afetam o desenvolvimento das crianças.

O Observatório permitirá dar um passo de gigante na cooperação transfronteiriça em matéria de saúde entre Espanha e Portugal.

Um sonho que está cada dia mais próximo.

Por Mar Marín

(Esta reportagem faz parte da série "Histórias Transfronteiriças de Coesão Europeia", #HistóriasTransfronteiriças, #Crossborder, um projeto da Agência Efe financiado com o apoio da Comissão Europeia. A informação é responsabilidade exclusiva do seu autor. A Comissão não é responsável da utilização que se possa fazer desta)