EFEAyamonte/Faro (Espanha/Portugal)

Ana e María não perdem o sorriso por trás da máscara. Trabalham numa farmácia em Ayamonte (sul de Espanha) e mimam os seus vizinhos. Vigiam a sua tensão, o seu peso, os seus níveis de oxigénio, pedem medicamentos ao hospital… Tornam a vida dos pacientes mais fácil.

Ana Beas e María Rivero trabalham na farmácia La Villa, num popular bairro ayamontino, a poucos quilómetros da fronteira com Portugal. Têm uma ampla experiência como "boticárias" atrás do balcão, mas há alguns meses que se ocupam também do bem-estar dos seus vizinhos.

Ambas colaboram com o projeto NUMA, uma iniciativa com um orçamento de 1,5 milhões de euros cofinanciada pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) dentro do Programa de Cooperação Transfronteiriça Interreg Espanha-Portugal (POCTEP).

O seu propósito: melhorar o atendimento aos doentes idosos vulneráveis aproveitando o alcance da rede de farmácias.

A farmácia atua como um interlocutor entre o paciente e os serviços sociais e sanitários através de uma plataforma de "telemedicina" que usa tecnologias de informação e comunicação.

O projeto conta com a participação da Andaluzia -através da Direção de Saúde do Governo local, a Universidade de Sevilha e a Ordem dos Farmacêuticos hispalense- e o Algarve (sul de Portugal).

O objetivo é triplo: melhorar o acompanhamento das condições crónicas do utente -com o controlo dos seus sinais vitais-, avaliar a sua fragilidade -evitar riscos de quedas e fraturas- e facilitar a sua rotina com os medicamentos porque, explica Ana Beas, "as primeiras semanas de um novo tratamento são cruciais".

O modelo procura obter vantagem da proximidade entre a farmácia e o utente para lhe prestar assistência e melhorar a sua qualidade de vida. Além disso, numa fase avançada, prevê-se um programa terapêutico que inclui recomendações de estimulação cognitiva, funcional e social, promovendo a atividade física e a socialização.

A farmácia não substitui o médico nem o centro de saúde, mas o "boticário" pode medir os sinais vitais do paciente e colocá-las numa plataforma online em tempo real à qual o seu médico de atenção primária pode aceder. Ou facilitar medicamentos, até enviá-los a casa, indicados pelo especialista e que antes apenas eram receitados em hospitais.

O NUMA tem o seu próprio espaço na farmácia La Villa. Numa vitrina vê-se os instrumentos utilizados pelo programa -termómetro, espirómetro, medidor de tensão, balança…-, que enviam diretamente os dados obtidos a uma plataforma à qual o médico acede.

Ana Beas e María Rivero podem fazer o seguimento dos tratamentos e fazer soar os alarmes caso encontrem sintomas suspeitos em alguns dos pacientes do programa.

A TENSÃO DE JOSÉ

José González é um dos utentes do NUMA. Tem 78 anos, recebeu um transplante de rim há vinte e precisa de ser vigiado de perto.

Ajusta-se ao perfil médio de pacientes da primeira fase do programa, que "está especialmente indicado para maiores de 65 anos, polimedicados e com doenças crónicas", explica Ana Beas. Embora seja possível ampliar o espectro.

Na farmácia do bairro, Ana mede a tensão de José periodicamente, o seu nível de açúcar no sangue, o peso e faz-lhe uma revisão geral para assegurar que está tudo em ordem.

E José poupa tempo e energia. Antes, recorda, tinha que ir ao centro de saúde. De carro, confessa, porque ficava a 3 quilómetros de casa. "Agora estou a cinco minutos, a 150 metros".

José recebe atendimento primário no centro de saúde de Ayamonte, mas também tem revisões em hospitais de Sevilha e Huelva. "Antes tinha que fazer marcação, ir ao centro médico. Agora venho à farmácia e se não é hoje, é amanhã".

"Venho aqui e digo à minha amiga Ana, 'quando é que venho?", brinca José. "Isto devia continuar e estender-se". "Aqui cuidam bem de mim", continua José, que é atendido na farmácia um par de vezes por semana.

A VIAGEM DE ADELINA

Adelina Lorenzo tem outro perfil. Com 59 anos, sofre de uma doença crónica e degenerativa, artrite reumatoide, que precisa de um tratamento habitualmente apenas dispensado pelas farmácias hospitalares.

O programa mudou-lhe a vida. Para conseguir a sua medicação esteve um ano a ir a um hospital de Huelva, a 50 quilómetros da sua casa.

Foram centenas de quilómetros percorridos e dezenas de horas investidas, lamenta Adelina. "E só para me entregarem um medicamento".

A sua situação agravou-se com o surgimento da pandemia, porque a sua doença torna-a especialmente vulnerável. Mas os seus receios dissiparam-se quando lhe propuseram entrar no programa, há um ano, e começar a recolher o medicamento na farmácia do seu bairro.

"É muito melhor, muito mais fácil, não tenho que me deslocar, e ao hospital, como está agora, quando menos vezes formos melhor", disse.

"Não é o mesmo vir aqui, à farmácia, que está a cinco minutos a andar, que ter de ir a Huelva levantar um medicamento". Adelina sente-se aliviada e segura. "É uma opção muito boa e muito avançada".

María Rivero, imersa na segunda fase do programa, vela por Adelina. Segue de perto o tratamento e ocupa-se de o solicitar ao hospital quando necessário.

Encarrega-se também de acompanhar a reação dos pacientes a novos tratamentos, de renovar os pedidos aos médicos e até dispensar medicamentos a utentes sem cartão do projeto quando estiver justificado.

UM PROGRAMA QUE VEIO PARA FICAR

"Este programa veio para ficar", assegura María Rivero. "Melhora a qualidade de vida, especialmente agora com a pandemia".

María concentra-se na segunda fase do projeto, mais centrada na comunicação entre o paciente, o farmacêutico, o centro de cuidados primários e, se necessário, o hospital.

"O objetivo do projeto é que estejamos ligados aos profissionais de saúde de todos os âmbitos, sejam públicos ou privados -as farmácias-", continua. "Nós como profissionais do medicamento, o médico como profissional do diagnóstico e o paciente".

O principal objetivo do projeto, sublinha María, é facilitar a comunicação entre os profissionais de saúde para melhorar a qualidade de vida do paciente.

"É disso que se trata, que o paciente faça bom uso da medicação, que adira ao tratamento e que, se tiver algum problema, possamos resolvê-lo e até renovar o tratamento todos os meses", afirma.

A pandemia teve um impacto no projeto, admitem Ana Beas e María Rivero.

"Estamos muito próximos do doente e nas condições atuais, em que o doente não pôde ir a uma consulta presencial, aqui fizemos o mesmo que o enfermeiro teria feito", acrescenta Ana, "Em tempo real, os dados do utente são vistos tanto pelo enfermeiro como pelo médico de atenção primária".

O potencial do NUMA é impressionante, especialmente em áreas rurais e em áreas castigadas pelo envelhecimento da população.

O exemplo da Andaluzia pode ser reproduzido no seu vizinho português, o Algarve, que iniciou a fase prática em dezembro passado mas teve de suspender o programa devido à pandemia.

Ainda está atrasado mas será implementado em breve, explica o especialista português António Pina.

Pina aposta no NUMA para a região do Algarve como um grande projeto de "telemonitorização" que poderá ajudar, entre outros, os pacientes com hipertensão.

"A hipertensão é um problema grave no país", admite. "E no Algarve em particular", devido ao envelhecimento da população e à sua dieta rica em sal.

Além disso, adverte, "muitas pessoas com hipertensão não sabem que a têm", e mesmo "quando sabem e são diagnosticadas e o médico lhes prescreve medicamentos, vão-se embora".

Alguns tomam medicamentos, mas não da forma correta. "Há uma confusão total e estudos sobre pacientes hipertensivos mostram que tomam a medicação mal ou não a tomam", adverte Pina.

Daí a importância de um projeto como o NUMA que, além disso, "permite aliviar a carga dos hospitais e centros de cuidados primários".

As farmácias nunca irão substituir os hospitais, mas, ressalta, "podem manter a vigilância e velar pela disciplina".

Por Mar Marín

(Esta reportagem faz parte da série "Histórias Transfronteiriças de Coesão Europeia", #HistóriasTransfronteiriças, #Crossborder, um projeto da Agência Efe financiado com o apoio da Comissão Europeia. A informação é responsabilidade exclusiva do seu autor. A Comissão não é responsável da utilização que se possa fazer desta)