EFECúcuta (Colômbia)

A crise que a Venezuela vive provocou um problema de fome que, em palavras da deputada no exílio Gaby Arellano, ultrapassa os padrões de países em guerra ou que sofreram catástrofes naturais, razão pela qual considera necessário a ativação de um corredor humanitário.

"Infelizmente os corredores humanitários são ativados em países em guerra, com catástrofes naturais. No nosso país não aconteceu nenhuma das duas coisas mas tem que se ativar porque a crise de fome ultrapassa os padrões desses países", afirmou a deputada numa entrevista com a Efe em Cúcuta.

Mais de 61% dos venezuelanos passou a viver na pobreza extrema e afirmou ter perdido mais de 10 quilos de peso em 2017, segundo a Sondagem sobre Condições de Vida (Encovi) que as principais universidades do país realizam anualmente, divulgada no mês passado.

Arellano, de 33 anos, faz parte do partido Vontade Popular (VP), o mesmo do presidente do Parlamento e interino da Venezuela, Juan Guaidó, e de Leopoldo López.

A deputada foi uma das pessoas encarregadas por Juan Guaidó, reconhecido por mais de quarenta países como presidente interino da Venezuela, para receber a ajuda humanitária internacional em Cúcuta, que tem a principal passagem fronteiriça da Colômbia com a Venezuela.

A primeira parte do auxílio chegou a esta região na passada quinta-feira em nove camiões e, segundo disse a deputada, "gradualmente vão chegar mais toneladas de comida".

"Estamos a trabalhar com mais dois países que estão a transferir ajuda à Colômbia, estamos a trabalhar para abrir outros pontos nas fronteiras com o nosso país, não só em Cúcuta, que tem o maior centro de aprovisionamento porque conta com umas instalações grandes e medianamente preparadas para um processo como este", asseverou.

Nesse sentido, Arellano afirmou que Guaidó "irá fazer anúncios importantes" esta terça-feira sobre a fase de entrada da ajuda humanitária em território venezuelano, explicando "o como e o quando".

Para essa data, em que se celebra o Dia da Juventude, Guaidó convocou uma mobilização como parte das chamadas que liderou contra Nicolás Maduro, a quem considera um "usurpador" da Presidência.

E é por isso que, segundo explicou a deputada exilada, dezenas de voluntários continuam a trabalhar no centro de aprovisionamento da ponte de Tienditas, uma moderna infraestrutura sem estrear que une os dois países, apesar do Governo de Maduro rejeitar receber as ajudas porque considera que se trata de um espetáculo político.

"O regime usurpador procura por todos os meios desinformar, desmotivar, dividir esta luta, e o presidente Guaidó trabalha sem parar em unir, em ser coerente, em ser responsável, em trabalhar numa estratégia entre os atores necessários para avançar num passo firme e claro", afirmou.

Arellano mostrou-se convencida de que vai ser o povo a derrubar "os muros da ditadura", referindo-se assim aos dois contentores e ao camião cisterna que impedem a passagem no lado venezuelano da ponte de Tienditas.

"Estamos convencidos que hoje há muita mais necessidade que motiva a mobilização popular", asseverou.

A representante do VP afirmou também que Guaidó já tem o apoio popular e internacional, pelo que só falta que os membros da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) o reconheçam como o seu único comandante-em-chefe.

Arellano descreveu Guaidó como um líder que "uniu o povo" à volta "da sua mensagem e a sua tomada de ação" desde que se autoproclamou presidente interino no passado 23 de janeiro.

"Há um plano, há uma rota, dentro e fora do país, acho que isso é de ressaltar, mas sobretudo é de assinalar com responsabilidade para onde vamos: a cessação da usurpação, o Governo de transição e as eleições livres", acrescentou.

Por outra parte, a deputada no exílio criticou Maduro por dizer que no seu país não há uma crise, dando como exemplo a falta de luz na passada sexta-feira no Palácio de Miraflores em plena conferência de imprensa do governante.

"O que resta para o povo venezuelano se Maduro fica sem luz, eletricidade, em Miraflores numa transmissão ao vivo? Isso é uma demonstração da decomposição que há no nosso país", lamentou.

Arellano considerou além disso que o que se está a ver nos últimos meses com o Governo de Maduro é "como um castelo de cartas, que vai caindo pedaço a pedaço".

"É o que estamos a ver, perceber e sentir. Continuamos a trabalhar nestas horas dentro e fora do país ", concluiu.

Jorge Gil Ángel