EFEAyamonte/Vila Real (Espanha/Portugal)

A sua luz, essa que inspirou Sorolla, a água, a marisma ou o contrabando. São as musas da Raia que dão de beber aos 'Poetas do Guadiana', uma corrente ibérica de espanhóis e portugueses que cumpre agora uma década.

"É uma arma pacífica para nos juntarmos", assegura numa entrevista com a Efe o porta luso António Cabrita acerca deste movimento poético transfronteiriço.

Porque "o Guadiana é um rio que nos une e não águas que nos separam", afirma o escritor e jornalista português José Cruz.

Os versos, em castelhano ou na língua de Camões, não têm fronteiras e uniram os sentimentos de um triângulo transfronteiriço formado pelas portuguesas Vila Real de Santo António e Castro Marim e pela espanhola Ayamonte.

Conscientes de que a lírica é uma ponte entre espanhóis e portugueses, a Eurocidade do Guadiana comemora os dez anos deste movimento com a publicação do poemário "Poética na Eurocidade do Guadiana", financiado com fundos Feder através do Programa de Cooperação Transfronteiriça Interreg Espanha-Portugal (POCTEP).

Porque o "conhecimento mútuo" entre poetas de ambos países é sinónimo de "paz na fronteira", ressalta Cabrita, cuja poética refresca as relações que existiam outrora na Raia sob a alçada do contrabando, uma atividade que desapareceu depois da entrada de Portugal e Espanha na UE.

DEZ ANOS DE CONVIVÊNCIA

O primeiro evento formal desta corrente literária aconteceu na Casa da Cultura de Ayamonte.

"Agora já não há preocupação em dizer que aquele (poeta) é espanhol e aquele é português. Convivemos como amigos", diz Cabrita, que no poemário que será lançado a 9 de maio, coincidindo com o Dia da Europa, oferece versos nas duas línguas.

Cabrita atreve-se inclusivamente a compor um poema com estrofes em português e castelhano, dedicado ao "Espaço Único" da União Europeia (UE).

"Nascer e crescer na fronteira, e antes da revolução, era algo complicado / Nos meus sonhos de menino, sempre pensava no que ficava para lá da raia, do rio. / Que nos separaba, que nos limitaba".

Cruz e Cabrita ressaltam que nesta década de encontros poéticos ibéricos não houve "exclusão de nenhum tipo", já que "a poesia que cada um produz não depende de nenhuma corrente escrita".

José Carlos Barros, também de Vila Real, inspira-se no poemário com uma série dedicada à União Europeia que descreve esta Eurocidade como uma região "Sentada nos calcanhares da Europa".

A convivência poética neste triângulo raiano gera desenvolvimento porque "aprendemos uns dos outros", ressalta Cabrita, enquanto o movimento lírico transfronteiriço avança como uma mancha que já se estendeu a outras zonas como Elvas ou Badajoz.

COOPERAÇÃO POÉTICA INFANTIL

José Luis Rúa, poeta espanhol de Ayamonte e docente de profissão, recorda à Efe que já em 1974 participou num intercâmbio entre alunos espanhóis de Huelva e portugueses de Vila Real de Santo António.

"Sempre nos relacionamos de tu a tu. E o bom é o grande respeito que temos e a generosidade", ressalta, reconhecendo ainda que nos tempos de pandemia e com a fronteira controlada sente falta de ir beber um café à vizinha Castro Marim.

Enquanto recita versos em castelhano e português compostos por alunos de Ayamonte, Vila Real e Vila Nova de Cacela, Rúa faz um balanço e recorda que editaram três poemários nascidos em escolas fronteiriças.

"As ondas, com o seu murmulho, se estão a queixar", escrevem as crianças para denunciar a poluição que afeta o Guadiana.

O seu próximo desafio é uma edição sobre "A poesia romântica do Baixo Guadiana", porque esta zona da Raia "é especial, é distinta. Não me perguntes o que tem, se é o sol, se é a água, o ar, o pôr do sol, não sei, é uma terra mágica".

Por isso, depois de mais um ano de confinamento e de encontros poéticos em suspenso, José Luis Rúa tem "saudades" de conversar, ler e abraçar os restantes poetas ibéricos.

Por Carlos García

Esta crónica faz parte da série "Histórias Transfronteiriças de Coesão Europeia", #HistóriasTransfronteiriças, #Crossborder, um projeto da Agência Efe financiado com o apoio da Comissão Europeia. A informação é responsabilidade exclusiva do seu autor. A Comissão não é responsável da utilização que se possa fazer desta