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No papel que assumiu como presidente em exercício da Venezuela, o líder do parlamento, Juan Guaidó, assinala diretamente as Forças Armadas como o fator que hoje sustenta o "ditador", em referência ao presidente Nicolás Maduro.

"São as Forças Armadas as que hoje sustentam o ditador e o apelo foi muito claro, sem panos quentes, a esse setor importante do país, que têm um papel não só na cessação e na usurpação, mas também na reconstrução da Venezuela", disse Guaidó numa entrevista à Agência Efe.

Para Guaidó, também está claro que alguns militares já começaram a dar as costas a Maduro publicamente, mas afirmou que 160 militares ativos foram presos e, afirmou, que "estão a ser torturados".

Segundo os seus dados, "80% da família militar não está nada insatisfeita com esse regime".

Esta lealdade da chamada Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) ao governo chavista será o principal obstáculo para desfazer o que Guaidó chamou de "cessação da usurpação" da Presidência por parte de Maduro, além de ser o entrave para que assuma com todos os poderes da presidência interina do país.

E perante a possibilidade de ordenar uma intervenção estrangeira, Guaidó respondeu: "Isso é muito controverso. O que posso afirmar neste momento de forma absoluta é que, no âmbito das nossas competências, do pleno exercício da soberania nacional, faremos o que for necessário para conseguir o fim da ditadura".

Quando Guaidó jurou, frente a centenas de milhares de venezuelanos, que assumia as funções como presidente encarregado no dia 23 de janeiro, afirmou que o seu governo pretende atingir três objetivos que se tornaram num mantra para a oposição: "Fim da usurpação, governo de transição e eleições livres".

Hoje o deputado garante que Maduro já não conta com o apoio de ninguém, porém continua instalado no palácio presidencial de Miraflores, por causa de quem? "Dos militares", responde.

"Maduro desconhece a crise, desconhece a migração, desconhece elementos que são claramente visíveis para a Venezuela, a deterioração da qualidade de vida, dos serviços públicos, o risco de vida que temos na Venezuela", aponta, ao enumerar as razões pelas quais tem certeza que o governante está sozinho.

"O que nos falta hoje depois de 20 anos de trabalho de sacrifício para construir uma maioria? Falta o elemento que sustenta definitivamente, em última instância, as ditaduras, que são as Forças Armadas", reitera.

Sem mencionar uma data limite para encerrar a "usurpação" de Maduro, Guaidó prefere reiterar que existem tarefas em que devem continuar a trabalhar como "mobilização social", "comunidade internacional", "Forças Armadas" e "união da oposição".

"Estamos desesperados, estamos todos frustrados por conta deste momento muito difícil para o nosso país, mas devemos manter-nos na rota, está muito claro que estamos num caminho de esperança, de uma mudança que está cada vez mais perto. Esperemos que seja o mais breve possível, sem dúvida", diz.

Guaidó também não quer adiantar-se no último dos três passos, pois não sabe quem será o próximo candidato à presidência quando essas "eleições livres" acontecerem.

"O melhor candidato é aquele que surgir da união de todos os fatores, da alternativa democrática. Seria prematuro falar sobre isso, estamos num processo de unificação, processo de reunir todos os setores", afirma.

E esclarece sobre o tema: "Haverá apenas um candidato perante esse processo".

Sobre a auditoria que a Controladoria venezuelana anunciou que iria abrir por supostos recursos internacionais recebidos, Guaidó afirmou: "Eu acho que um regime absolutamente deteriorado, sem credibilidade, não tem qualquer autoridade ou legitimidade para, em seguida, falar sobre quem roubou todo o dinheiro".

Nesse sentido, afirmou que pode mostrar "com honestidade" a origem dos recursos que possa conduzir, "como sempre fizemos ao contrário dos que hoje (estão) no regime, o seu estilo de vida é bastante questionável".

Guaidó não se preocupa com as medidas das instituições do Estado que demonstraram afinidade com o governo Maduro, e reitera que só se preocupa em "sair desta ditadura, conseguir a força social e política necessária para conseguir a cessação da usurpação".

E acrescentou: "Eu acredito francamente que eles já estão de saída".

Guaidó desmonta o discurso de Maduro de que as suas ações podem levar a uma "guerra civil" e aponta que na Venezuela "não há possibilidade de confronto entre pessoas", pois "Maduro está isolado, está sozinho, não conta com o apoio popular, não tem uma reunião ideológica à volta dele".

Para o líder da oposição, Maduro hoje "não levanta nenhuma causa" e só quer "manter e proteger os seus privilégios" e portanto "ninguém estaria disposto a fazer nada por Nicolás Maduro, se sacrificar, morrer por alguém que não está disposto nem sequer a atendê-los ou a protegê-los, quando 90% da população quer mudança".

Também afirma que Maduro não tem como financiar este suposto cenário bélico que ele mesmo expõe, e esta é uma das razões pelas quais o Parlamento que preside pediu às organizações financeiras internacionais para não entregar os ativos da Venezuela ao governo chavista.

"Pois protegemos os ativos da Venezuela, justamente para que eles não usem os recursos do país para continuar a armar a população", diz.

Enquanto isso, Guaidó diz que está concentrado em conseguir ajuda humanitária para o país e garante ter conseguido a entrada de 1.700.000 rações de alimentos para crianças em estado de desnutrição.

Nélida Fernández