EFE

Lisboa/

A par da luta contra os plásticos, a conservação da biodiversidade e a pesca sustentável, a guerra contra a Ucrânia tornou-se num dos temas mais recorrentes na Conferência dos Oceanos da ONU em Lisboa, onde Kiev denunciou hoje os danos ambientais que a Rússia tem deixado.

A participação da delegação ucraniana, liderada pela sua embaixadora em Lisboa, Inna Ohnivets, na sessão plenária da Conferência, coroou esta quarta-feira três dias de contínuas demonstrações de solidariedade com o povo ucraniano e contra a agressão russa.

A Ucrânia foi à capital portuguesa para denunciar a guerra e, sobretudo, para detalhar as consequências que esta já está a ter sobre o ambiente e os oceanos.

"Todos os países do mundo devem-se atualmente esforçar-se para impedir a invasão russa da Ucrânia, que tem o potencial de se tornar numa catástrofe ambiental global", alertou a diplomata.

Foram encontrados "vários milhares" de golfinhos mortos e feridos na costa do Mar Negro, mais de 20 reservas da biosfera e parques naturais sofreram danos, e derrames de petróleo e outros produtos químicos, tais como sulfureto de hidrogénio de bombas, estão a poluir as águas.

Os efeitos, avisou Ohnivets, não se limitarão à Ucrânia: estas substâncias nocivas podem até chegar ao Mediterrâneo.

DEMONSTRAÇÕES DE APOIO

A Ucrânia, que falou no terceiro dia da conferência, foi apoiada por muitos Estados membros da ONU que não quiseram deixar a guerra de fora das suas intervenções.

"Este é um momento crítico para os nossos oceanos, mas também para os nossos princípios, e nenhum de nós pode ignorar a ameaça a uma ordem internacional baseada em regras colocada pela guerra brutal da Rússia contra a Ucrânia", disse o enviado dos EUA para o clima, John Kerry, na terça-feira.

A União Europeia também expressou o seu apoio. "A UE condena a agressão não provocada e injustificada da Rússia contra a Ucrânia, que viola o direito internacional e compromete a segurança e estabilidade internacionais", disse esta quarta-feira a diretora-geral de Pesca e Assuntos Marítimos (DGMare) da Comissão Europeia, Charlina Vitcheva.

A delegada da Geórgia, a diplomata Nina Sanadiradze, expressou a preocupação do seu país com o bloqueio dos portos ucranianos. "que tem tido um impacto negativo nos preços".

"Condenamos veementemente a agressão militar em larga escala da Rússia ao seu vizinho soberano", acrescentou, e "apoiamos a soberania e integridade territorial da Ucrânia, o que inclui a Crimeia, Donbass e os direitos de navegação do país.

No primeiro dia da conferência, foi Angola que apelou a um "cessar-fogo incondicional" na Ucrânia. "O mundo não pode tolerar um conflito no coração da Europa", disse o presidente angolano João Lourenço.

Angola é um dos países que se absteve na votação da Assembleia da ONU a condenar a invasão russa da Ucrânia e tem uma estreita relação histórica com Moscovo.

RÚSSIA NÃO MENCIONA A GUERRA

A Rússia não fez qualquer menção à guerra, ou à "operação militar especial" na Ucrânia, mas foi a Lisboa com o enviado especial do Kremlin para questões climáticas, Ruslan Edelgeriyev.

Este conselheiro próximo do presidente Vladimir Putin proferiu na terça-feira um discurso inteiramente dedicado aos oceanos e sem qualquer referência à política externa, no qual confirmou que Moscovo continua empenhado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Mas quis emitir um aviso numa entrevista com a agência de notícias Lusa publicada no início da reunião de Lisboa: as sanções ocidentais poderão "complicar" o cumprimento dos objetivos de neutralidade de carbono a curto prazo.

Por Paula Fernández