EFELisboa

Apesar da incerteza e das restrições geradas pela covid-19, o imobiliário luso, que viveu um "boom" nos últimos anos, confia que Portugal será capaz de manter a procura estrangeira para apoiar a recuperação.

A pandemia e as medidas implementadas para contê-la travaram também as transações imobiliárias -a venda de casas chegou a cair mais de 50% em abril- e embora já se tenham levantado muitas restrições, ainda existem impedimentos à mobilidade internacional.

As viagens não essenciais continuam proibidas desde alguns dos maiores investidores no imobiliário luso, como é o caso do Brasil e Estados Unidos, o que continua a arrastar o investimento internacional e está inclusivamente a começar a reconfigurar a pasta de clientes das imobiliárias.

"A restrição às viagens internacionais e a consequente redução do investimento estrangeiro levou a que o cidadão nacional ganhasse algum peso relativo face aos clientes estrangeiros", assinala à EFE a CEO da RE/MAX Portugal, Beatriz Rubio.

No primeiro semestre deste ano, os portugueses representaram 82% dos clientes totais da RE/MAX, e durante maio e junho aumentaram o seu peso em torno de 3%.

OTIMISMO COMO REGRA

Apesar deste abrandamento, o setor confia que o país irá continuar a ser um destino de investimento imobiliário bem situado a nível internacional.

"Somos bastante otimistas com a evolução do mercado internacional, que se vai recuperar rapidamente com a abertura de fronteiras e com a retirada das restrições temporárias de mobilidade", assinala à EFE o CEO da Century 21 para Portugal e Espanha, Ricardo Sousa.

Embora admita que a procura estrangeira tenha ficado em suspenso com a pandemia, Sousa assegura que o interesse continua, graças a que Portugal "mudou de escala e tem hoje uma notoriedade e credibilidade internacional como nunca antes".

É a mesma opinião de Vasco Rosa da Silva, sócio fundador da Kleya, uma plataforma que assessora quem se quer estabelecer ou investir em Portugal e que assegura à EFE que, nestes meses de pandemia, "de toda a gente que tinha intenções de investir em Portugal, nenhuma até hoje se foi".

Rosa da Silva destaca que a chegada de investidores estrangeiros nos últimos anos tem estado potenciada em parte pela qualidade de vida e a segurança que oferece frente a outros destinos como Brasil, Estados Unidos ou Médio Oriente, e acha que Portugal "vai reforçar a sua imagem como país seguro" apesar da pandemia.

Portugal foi visto como um exemplo de resposta à pandemia nos seus inícios, mas os surtos que começaram a surgir a partir de meados de maio, concentrados na região de Lisboa, prejudicaram a sua imagem e chegaram-lhe a deixar nas listas negras de vários países europeus, apesar da curva de novos contágios tenha já retomado a tendência decrescente.

GOLDEN VISA, A ESPERANÇA

Junto à qualidade de vida e a segurança, os estrangeiros viram-se atraídos nos últimos anos pelos incentivos fiscais e por programas como as Golden Visa -chamados "Vistos Gold" no país-, que permitem obter permissão de residência na UE se, entre outros critérios, comprar imóveis de mais de meio milhão de euros.

Este programa perdeu um pouco de força nos meses anteriores à pandemia, quando o Governo anunciou que iria rever o regime e que a residência já não poderia ser obtida com a compra de imóveis em Lisboa e Porto, modificação que ainda não entrou em vigor.

O investimento captado com os Golden Visa duplicou em maio a respeito do mesmo mês de 2019, ainda que o setor estima que se poderá dever em parte à acumulação de transações pendentes dos meses anteriores, pois em março e abril caiu mais de 40%.

Ainda assim, o imobiliário vê estes vistos como um instrumento que pode ajudar na recuperação depois da pandemia.

"Tanto os Vistos Gold como outros programas de incentivo são importantíssimos para essa recuperação", defende a diretora de operações da Engel & Völkers em Espanha, Portugal e Andorra, Constanza Maya, que assinala que a alteração prevista deste regime deve ser "revista ou repensada para os próximos anos".

Rosa da Silva, da Kleya, acha que o programa será "melhorado", mas que as compras em Lisboa e Porto não serão limitadas.

"Desde que fique claro como fica o regime e que as pessoas possam viajar, vamos sentir de imediato um aumento na procura pelos Golden Visa, porque é uma solução para muita gente que procura um porto seguro", assinalou.

Sobre se modificação prevista para este ano irá finalmente avançar, fontes do Ministério dos Negócios Estrangeiros limitaram-se a assinalar à EFE que a autorização legislativa para o fazer está em vigor durante todo o ano de 2020.

Por Paula Fernández