EFEEstoril (Portugal)

"Se vem de visita, tudo bem", diz Augusto, sentado ao sol do Estoril, sobre um eventual regresso de Juan Carlos I a esta localidade portuguesa. O grande refúgio dos Bourbon no século passado e de outras tantas monarquias reflete hoje incredulidade perante a possibilidade de uma nova visita real.

A uns 25 minutos de Lisboa, com uma paisagem de praia, sol e tranquilidade, o Estoril foi lar da exilada família real espanhola desde 1946, e ali viveu Juan Carlos I vários anos de tardia adolescência e primeira juventude.

Algumas das memórias mais difíceis do monarca emérito repousam aqui, como a morte do seu irmão Alfonso -depois de um acidente com um revólver-, assim como dos mais felizes antes de regressar a Espanha e começar a sua vida institucional.

Em parte por essa estreita conexão sentimental, as especulações sobre a sua chegada a esta zona depois de sair de Espanha esta segunda-feira dispararam. Não era descabido, argumentou-se, que regressasse ao início.

A possibilidade foi descartada à Efe por fontes oficiais portuguesas, o que não dissipa a incredulidade que se instalou no Estoril nas últimas horas, onde há boas lembranças de Juan Carlos I e os seus pais, os Condes de Barcelona, que contam inclusivamente com uma estátua numa rotunda que tem o seu nome.

Os membros da Casa de Bourbon são aqui uma referência de uma época no qual o Estoril era o refúgio oficial de monarquias europeias sem coroa: os Saboia, os Orleãs, os Hungria ou os Bulgária, todos passaram por aqui à procura de lugar seguro após o fim da II Guerra Mundial.

BRAÇOS ABERTOS

"Se vem de visita, tudo bem", diz à Efe Augusto Batista, um septuagenário, residente toda a vida em Cascais, que apanha sol frente a uma praia, praticamente vazia por culpa do coronavírus.

Batista afirma recordar bem os anos dourados do Estoril, nos quais o seu célebre Casino era o centro de um imaginário de aristocracia, dinheiro e apresentações em sociedade, como a protagonizada pela desaparecida infanta Pilar, irmã de Juan Carlos, no luxuoso Hotel Palácio.

Estoril foi sempre amigo, pelo que não é de espantar que na semana passada o autarca de Cascais -onde a localidade se encontra-, Carlos Carreiras, tenha afirmado que iriam receber o rei emérito "com os braços abertos".

Embora não haja unanimidade, especialmente quando os portugueses recordam o contexto no qual Juan Carlos abandona Espanha, depois de meses de uma avalanche de informações negativas sobre possíveis negócios ocultos por sua parte.

"Acho que o rei espanhol devia ficar em Espanha e assumir o que fez lá, e ficar com o povo de que foi rei", diz Maria Elena, que considera que "sair de Espanha para ir para outro país é uma falta de coragem, fugir nunca está bem".

"MELHOR UM SÍTIO CONHECIDO"

Entre as semivazias ruas turísticas do Estoril, os rumores do destino do rei emérito são díspares, não só entre portugueses como também entre alguns espanhóis, apanhados de surpresa com o anúncio de Juan Carlos I no meio das férias.

"Faz sentido que venha a Portugal", opina Inés Porras, a caminho da praia com os seus dois irmãos e a mãe.

Porras aponta à semelhança do idioma e estilo de vida entre Espanha e Portugal, além da proximidade geográfica. Para não falar do passado.

"Já viveu aqui em pequeno. Pois se é para escolher um sítio, melhor um conhecido, não?", comenta.

SOLIDÃO NA VILLA GIRALDA

No Estoril, os Condes de Barcelona e os seus filhos viveram na Villa Giralda, uma imponente vivenda de três andares e cerca de 684 metros quadrados vendida nos anos 90. Agora parece deserta, mais uma casa na zona acomodada do município.

Outros lugares mantêm o eco da passagem da família real espanhola, quase como se tratasse de um itinerário alternativo: a pastelaria Garret, a gelataria Santini ou o porto desde o qual saiam para navegar.

No casino e no Hotel Palácio, dizem, ainda há noites felizes, embora com menos pompa e circunstância.

Por Cynthia de Benito