EFELisboa

Foram refúgios da aristocracia, um viveiro que reuniu vegetação do Velho e do Novo Mundo, e agora propõem percursos renovados para passear pela sua vasta história. A Floresta de Béjar e a Mata de Bussaco, em Espanha e Portugal, respetivamente, revivem graças a um ambicioso projeto transfronteiriço.

Valorizar e dinamizar são os dois verbos que melhor resumem o trabalho do projeto Jarcultur, que se desenvolve nestes dois locais, classificados como Jardins Históricos Monumentais e próximos das cidades de Salamanca (Espanha) e Coimbra (Portugal).

Com um orçamento de 1.750.726 euros, 1.313.044 dos quais provêm de fundos FEDER através do Programa de Cooperação Transfronteiriça Interreg Espanha-Portugal (POCTEP), equipas de técnicos realizaram durante meses uma intervenção abrangente que dá nova vida a paisagens já carregadas de história e praticamente prontas para deixarem de ser desconhecidas entre os próprios vizinhos, a outra grande missão.

RENASCIMENTO ITALIANO VS AR NEOMANUELINO

"O objetivo era estabelecer sinergias com um jardim semelhante do outro lado da fronteira, como o Bussaco, e depois no nosso caso, em Castela e Leão, promover um jardim muito importante como a Floresta de Béjar, porque é bem de interesse cultural, que está muito protegido e é valioso, mas vemos que não está suficientemente difundido", explica Enrique Gilarranz à Agência Efe.

Este arquiteto, chefe do serviço de inovação e divulgação na direção-geral do património do Governo da região espanhola de Castela e Leão, resume um dos principais problemas: reluzir a riqueza destes lugares.

A Quinta El Bosque de Béjar é, enfatizam os seus dirigentes, uma "referência única do renascimento italiano em Espanha". Foi idealizada no século XVI pelos então duques de Béjar e está estruturada em vários terraços que misturam edificações em pedra com espaços ajardinados.

O complexo foi declarado bem de interesse cultural em 1982 e, embora sempre tenham sido realizadas pequenas intervenções de manutenção, antes da chegada da Jarcultur nunca se considerou uma ação abrangente que atendesse necessidades "globais".

A horta, os jardins, as fontes "que estavam sem uso", o sistema hidráulico; a longa lista é enumerada por Lourdes Pedrero, arquiteta técnica responsável pela gestão e desenvolvimento do projeto Jarcultur do Governo de Castela e Leão.

"É uma maneira de intervir em todo o conjunto, de o restaurar e ser capaz de o ligar, ligar as diferentes plataformas", afirma.

Enquanto o renascimento italiano brilha do lado espanhol, do outro lado da fronteira a arquitetura neomanuelina é a protagonista nas edificações do Bussaco, atualmente um hotel mas que no século XVII foi concebido como um convento, que por sua vez no começo do século XX se tornou numa zona de recreio para a aristocracia.

As suas capelas e lagoas estão rodeadas por uma vegetação luxuriante e "insólita" que combina espécies nativas com variedades trazidas pelos conquistadores portugueses do Novo Mundo.

A recuperação nesta área centra-se em mais de 9.500 metros quadrados dos Jardins do Palácio e 6.822 no Vale dos Fetos, criados no século XIX, onde os planos incluem a instalação de novos sistemas de irrigação automática amigos do ambiente.

"Isto não só permite uma gestão mais eficiente dos recursos, como também oferece condições para que o jardim apresente uma aparência mais agradável para os visitantes", disse à Agência EFE Guilherme Duarte, presidente do Conselho de Administração da Fundação Mata de Bussaco, responsável pela parte portuguesa da iniciativa.

À PROCURA DE VISITANTES

"Parte do projeto é a comunicação, não apenas a infraestrutura", alerta Pedrero. Divulgar o trabalho tem sido outro desafio para a Jarcultur devido às limitações da pandemia de coronavírus, embora, apesar disso, tenham conseguido aproximar o projeto dos cidadãos.

"Neste verão, por exemplo, fizemos várias oficinas para crianças e desenvolvemos um guia para pessoas com diferentes deficiências, porque uma das coisas que procuramos acima de tudo é trazer acessibilidade a este lugar", afirma.

O resultado desse esforço, que inclui a criação de uma página web e visitas virtuais como aperitivo, começou a notar-se a partir de junho, quando chegaram a receber grupos de visitas "de 50 pessoas, algo que antes não havia", diz a arquiteta.

"A covid meteu-nos nas nossas casas e temos tido uma vida muito introvertida, pelo que o facto de podermos usufruir de um espaço ao ar livre e poder até estar sem máscara permite-nos disfrutar do espaço de uma forma descontraída", propõe.

E após conhecer um, talvez atravessar a fronteira para continuar com o passeio.

Por Cynthia de Benito

(Esta crónica faz parte da série "Histórias Transfronteiriças de Coesão Europeia", #HistóriasTransfronteiriças, #Crossborder, um projeto da Agência Efe financiado com o apoio da Comissão Europeia. A informação é responsabilidade exclusiva do seu autor. A Comissão não é responsável da utilização que se possa fazer desta)