EFEWashington

A vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, suavizou o duro recado que tinha dado a potenciais migrantes da América Central durante a sua viagem à Guatemala e México no início da semana, quando pediu que "não venham" ao seu país pela fronteira sul de forma ilegal.

Nesta quinta-feira, numa entrevista exclusiva à Agência Efe, Harris afirmou estar "comprometida" em garantir que os EUA sejam um "porto seguro" para os solicitantes de asilo.

Kamala Harris também defendeu que o país não está a "ignorar" Honduras e El Salvador e revelou que, durante as suas reuniões na Guatemala, pediu que as ONGs e a imprensa do país sejam autorizados a atuar sem impedimentos.

Agência Efe: Gostaria de começar por perguntar sobre a mensagem que enviou aos centro-americanos que estão a considerar emigrar aos EUA: "Não venham. Se chegarem à fronteira, não poderão entrar". A senhora recebeu críticas do seu próprio partido, e segundo as legislações americana e internacional, os migrantes que chegam à fronteira têm o direito de pedir asilo. O que diz àqueles que estão a fugir por correr risco de morte ou têm outras razões legítimas para buscar asilo? Também diz "não venham"?

Kamala Harris: "Não. Deixe-me ser muito clara. Estou empenhada em garantir que os Estados Unidos proporcionem um porto seguro para aqueles que procuram asilo. Ponto.

Efe: Também recebeu críticas de especialistas que acreditam que o Governo americano não está a dar proteção humanitária suficiente para as pessoas vulneráveis no Triângulo Norte, nem está a criar vias legais suficientes para que migrem desses países para os Estados Unidos. Qual é a sua resposta?

Kamala: Deixamos claro que temos que expandir os caminhos da migração legal, e muito desse trabalho será feito através do Congresso dos Estados Unidos, pelo que os estamos a pressionar para fazer isso. Estamos a fazer isso enquanto reconstruímos o nosso sistema de imigração, que se deteriorou no último Governo (de Donald Trump), mas também temos que abordar as causas profundas da migração, e é por isso que viajei para Guatemala e México (...), porque essas questões são sobre a fome na região, o impacto dos furacões ou o impacto da covid-19.

SEM VISITAS A HONDURAS E EL SALVADOR

Efe: A sua missão concentra-se nos três países do Triângulo Norte, mas nesta viagem a senhora visitou apenas um, deixando Honduras e El Salvador fora do roteiro. Existem acusações de corrupção contra os presidentes desses países, e até de vínculos com o tráfico de drogas, no caso de Honduras. Essas acusações tornam esses países mais difíceis de lidar e desempenharam um papel na sua decisão de não visitá-los?

Kamala: Fui para a Guatemala porque esse é um dos principais lugares de onde estamos a ver a migração, mas o nosso Governo tem trabalhado nos três países. Portanto, não é que estejamos a ignorar os problemas em El Salvador e Honduras, estamos a lidar com eles. O Governo dos Estados Unidos está ligado e continua ligado com os Governos de El Salvador e Honduras, particularmente porque nos preocupamos com o povo desses dois países.

Efe: Mas pretende falar diretamente com os líderes de Honduras e El Salvador e visitar esses países neste ano?

Kamala: Como eu disse, estamos ligados com esses dois países, já estamos ligados a um nível muito alto.

Efe: Mas não acha que também é necessário comunicar com os presidentes desses países para cumprir sua missão, ou isso é muito problemático por causa das alegações de corrupção?

Kamala: Penso que é importante que nos comuniquemos num alto nível. Por exemplo, o nosso secretário de Estado (Antony Blinken) comunicou com eles, e esse é um dos níveis mais altos que existem. Todos (na equipa de segurança nacional) estão a lidar com parte disso, mas não há nenhuma região nesses três países que tenhamos ignorado.

"PREOCUPAÇÃO" COM SOCIEDADE CIVIL NA GUATEMALA

Efe: Parte da sua estratégia é trabalhar mais com a sociedade civil e o setor privado, mas na Guatemala, por exemplo, há uma lei que acaba de ser aprovada e que pode ameaçar a sobrevivência de muitas ONGs. E o presidente do México advertiu os Estados Unidos para que não financie algumas organizações (como Artículo 19 e Mexicanos contra a Corrupção e a Impunidade). Como é que os Estados Unidos podem garantir que estão a fortalecer a sociedade civil se alguns governos da região estão a tentar limitar as suas atividades?

Kamala: Deixe-me dizer que levantei essa questão, porque é uma preocupação concreta que tenho. É uma questão que me preocupa profundamente, porque queremos ter certeza de que existe independência: uma justiça independente, uma imprensa independente, e que as organizações sem fins lucrativos, as ONGs, possam fazer o seu trabalho sem interferências. Deixei isso bem claro. E devo dizer que fui muito franca com o presidente (da Guatemala, Alejandro) Giammattei e o presidente (do México, Andrés Manuel) López Obrador sobre as preocupações que tenho com a corrupção e a impunidade, e fui muito direta com cada um deles sobre essas preocupações.

(Nota da edição: após a entrevista, a porta-voz de Kamala Harris, Symone Sanders, disse à Efe que a vice-presidente apenas "se referia às suas reuniões na Guatemala", e não no México, quando falou que as ONGs precisam de "fazer o seu trabalho sem interferências").

Efe: E como reagiram quando lhes disse isso?

Kamala: Acho que apreciaram a minha franqueza. E esta viagem foi mais para deixar claro quais são as nossas prioridades, e essa é uma das minhas principais prioridades. Se vamos ter um impacto real na abordagem das causas fundamentais -e isso inclui minha tentativa de envolver o setor privado, as organizações sem fins lucrativos, as fundações e os filantropos, e conseguir que as agências do Governo federal dos EUA façam mais trabalho sobre isso- temos que abordar os problemas de corrupção e impunidade.

E em geral, um dos outros temas da minha viagem tem sido reconhecer que estamos interligados, que o nosso mundo é interdependente e que as coisas que acontecem naquela região afetam os Estados Unidos. E por muitas razões, inclusivamente por isso, temos uma preocupação que manifestei quando lá estive.

PERSPETIVA DE GÉNERO

Efe: A senhora certificou-se de incluir uma perspectiva de género na sua missão, e nesta viagem encontrou-se com mulheres empresárias tanto na Guatemala como no México. Como primeira mulher a ser vice-presidente dos Estados Unidos, por que acha importante colocar as mulheres no centro das soluções, e como pode conseguir que esse tipo de perspetiva de género deixe de ser vista como secundária ou sem importância?

Kamala: Ao longo da minha carreira, uma das minhas prioridades tem sido concentrar-me nas mulheres e nas raparigas, não apenas garantindo que sejam protegidas, mas que a sua voz seja ouvida nos debates, de uma maneira poderosa. Portanto, sim, foi algo deliberado. Em ambos os países, eu quis enfatizar as necessidades das mulheres e das raparigas: na Guatemala (encontrei-me com mulheres que são), agricultoras ou empreendedoras; no México (o grupo incluía) líderes sindicais, e falamos sobre muitos assuntos.

E há também a questão da violência: falamos da violência em toda a região, em muitos dos países, mas vamos também enfatizar a violência particular contra mulheres e crianças. Relaciono isso com o trabalho que realizei, reconhecendo que quando as mulheres têm independência económica e poder económico, são mais capazes de se libertar de situações abusivas e de se proteger. Ah, e na Guatemala lancei uma iniciativa de 40 milhões de dólares para capacitar as mulheres jovens.

Efe: No México, a senhora disse que falou com o presidente López Obrador sobre a necessidade de repensar as restrições de viagem. Podemos esperar que a fronteira com o México seja aberta novamente para viagens não essenciais no final deste verão (no hemisfério norte), graças ao programa de vacinação daquele país?.

Kamala: Isso é uma prioridade, temos que o abordar em algum momento, remover as restrições de viagem. Vendo que, pelo menos nos Estados Unidos, estamo-nos a aproximar de trazer a pandemia sob algum tipo de controlo, o que fizemos foi criar um grupo de trabalho de alto nível, e trabalharemos com esses outros países para abordar os detalhes de como minimizar e levantar as restrições de viagem.

Por Lucía Leal