EFEArrecife de Lanzarote

A paisagem e o modo de vida no seu "refúgio" na ilha de Lanzarote (Espanha) ajudou a universalizar a obra do Prémio Nobel da Literatura José Saramago, que, a partir da sua residência nas Canárias, abandonou o interesse por temas históricos e se tornou num escritor mais direto.

Consideração feita numa entrevista à EFE por Carlos Reis, professor da Universidade de Coimbra e curador dos atos comemorativos do centenário do nascimento do escritor português, que terão lugar ao longo do próximo ano em todo o mundo.

Para Reis, um dos principais estudiosos da obra de Saramago, o facto de o vencedor do Prémio Nobel ter decidido estabelecer residência permanente na ilha nos anos 90 teve uma clara influência na obra do escritor, algo que "podemos considerar a dois níveis".

"Um é evidente, já que foi em Lanzarote que Saramago encontrou o seu refúgio, o seu lar, depois de ter vivido um episódio lamentável em Portugal com a publicação de uma das suas obras. E depois, a outro nível que ainda não foi suficientemente estudado, e não sei até que ponto, a própria escrita de Saramago foi influenciada pelo cenário da ilha", afirma o especialista.

Reis indica que se deve ter em conta que Saramago escreveu uma parte importante da sua produção literária em Lanzarote, sobretudo aquela (a partir de "Ensaio sobre a Cegueira") na qual mudou a sua maneira de escrita.

UM ESCRITOR MAIS DIRETO

Reis assegura que esta mudança se reflete no facto de, em Lanzarote, Saramago "se tornar num escritor mais direto, um escritor que elabora menos, como um ato de barroco literário, a linguagem" e que trata, sobretudo, de temas alegóricos universais.

"A mudança do Saramago interessado na história, na vida social portuguesa, nos camponeses, nos trabalhadores, em figuras históricas como Dom João V ou Ricardo Reis, esse tempo é um tempo antes de Lanzarote", diz o académico. Um dos colóquios programados em Portugal para celebrar o centenário do nascimento do Prémio Nobel da Literatura vai-se centrar na "Estética e ética do romance em Saramago", que, segundo Reis, especialmente desde "Ensaio sobre a Cegueira", é um romancista que não trata apenas de temas humanos mas também daqueles que têm uma dimensão ética.

"Do princípio e normalmente de um ponto de vista muito crítico: crueldade humana, injustiça entre os homens, identidade pessoal, a dupla personalidade que podemos ter, e estou a falar de alguns dos temas das suas obras a partir daquilo a que ele próprio chamou a idade da pedra", acrescenta.

Reis indica que, embora neste novo período o escritor "vá direto a estes temas de dimensão ética", não esquece uma dimensão ideológica na sua produção.

Neste sentido, Carlos Reis recorda que "qualquer escritor, ao dar importância à dimensão ética da sua obra, fala não só para os leitores de hoje mas também para os leitores de daqui a cem anos" e este é, acrescenta, precisamente "um dos aspetos que mais garante que Saramago é um escritor de agora e do futuro".

UM ANO PARA LER SARAMAGO

Carlos Reis visitou Lanzarote para trabalhar na planificação dos eventos a realizar para celebrar o centenário do nascimento do escritor português, cuja coordenação mundial é da sua responsabilidade.

O estudo da sua biografia, a leitura das suas obras, novas publicações dos seus trabalhos em distintos formatos e encontros académicos sobre a sua figura em todo o mundo serão os eixos centrais dos atos comemorativos do centenário do nascimento do Nobel da Literatura.

Reis assinala que o eixo "fundamental" do centenário será a leitura, "mas num aspeto muito amplo, ou seja, a leitura de Saramago nas escolas, nas universidades, mas também a leitura de Saramago em exposições, em representações artísticas, em adaptações teatrais. Tudo isto entendido como leitura ou releitura de Saramago".

Para Carlos Reis, a obra do Nobel português continua na vanguarda, como demonstra o facto de que, com a pandemia, uma das suas obras, "Ensaio sobre a Cegueira", tenha assumido uma importância excecional, porque Saramago "soube prever o futuro e antecipar tragédias".

Por Salvador Hernández