EFEEstocolmo

O Right Livelihood Award, mais conhecido como Prémio Nobel Alternativo, homenageou esta quarta-feira na sua cerimónia de entrega, em Estocolmo, a luta saarauí e o ativismo climático, feminista e indígena, este último através do líder Davi Kopenawa, do povo Yanomami.

Kopenawa esteve presente no evento no Cirkus, um tradicional espaço de eventos na capital da Suécia, ao lado da defensora dos direitos humanos Aminatou Haidar, do Saara Ocidental, enquanto os outros vencedores, a jovem ativista ambiental sueca Greta Thunberg e a advogada chinesa Guo Jianmei, não estiveram presentes. Todos eles receberam 1 milhão de coroas suecas cada e uma escultura feita para a ocasião pelo britânico Tony Cragg usando metal fundido de armas ilegais apreendidas em El Salvador.

Greta está em Lisboa, de onde irá depois a Madrid para participar na Cimeira do Clima, enquanto Guo informou a organização que não participaria, sem entrar em detalhes sobre a razão.

"A luta continua, não vamos parar", disse a jovem sueca, idealizadora de greves escolares conhecidas como "Sextas para o futuro", numa pequena mensagem de vídeo na qual agradeceu o galardão.

PRESSÃO SOBRE GOVERNO BRASILEIRO

Kopenawa apelou à sociedade mundial para forçar o governo brasileiro a urgentemente expulsar os "garimpeiros" e delimitar as terras de outros povos indígenas, como aconteceu com os Yanomami.

Uma campanha internacional encabeçada pelo líder indígena e pela ONG Survival International levou à demarcação de mais de 96 mil quilómetros quadrados em 1992, depois de um quinto da população ter sido dizimada por "garimpeiros", que agora voltaram.

"Invadem e destroem a nossa terra, poluem os nossos rios e matam os nossos peixes com o seu mercúrio. Estamos a morrer, doentes de malária, tuberculose, oncocercose, cancro, gripe, sarampo e doenças sexualmente transmissíveis", denunciou em discurso no idioma yanomami.

Através da ativista sino-americana Karin Tse, encarregada de ler o seu discurso, Guo, por sua vez, destacou os avanços obtidos na proteção dos direitos das mulheres na China com várias organizações nas últimas duas décadas, embora tenha lamentado que ainda existam "imensos desafios e dificuldades".

A falta de diálogo com as autoridades, a ignorância das questões de género e a falta de financiamento dificultam uma luta em que a ativista, considerada uma das advogadas de direitos humanos mais reconhecidos do seu país, tem sido pioneira.

AMEAÇA DE NOVOS CONFLITOS ARMADOS

No seu discurso em árabe, Haidar atacou Marrocos por não reconhecer os direitos do povo saarauí, mas também Espanha, que, na sua visão, não assumiu a responsabilidade com a antiga colónia; França, por "proteger e apoiar Rabat"; e a ONU, que ao não aplicar as suas resoluções se tornou na garantia do status quo.

O fundador e presidente do Coletivo dos Defensores Saarauís dos Direitos Humanos (Codesa) acusou ainda a União Europeia de um contínuo saque dos recursos naturais do Saara Ocidental em cumplicidade com as autoridades marroquinas.

"Estão-nos a fazer renunciar à luta pacífica porque não nos deixam outra saída. É o que mais receio: que os saarauís sejam obrigados a pegar em armas de novo para defender os seus direitos devido à indiferença da comunidade internacional", alertou.

PARTICIPAÇÃO DE EDWARD SNOWDEN

A cerimónia contou com a presença, por videoconferência, do ex-analista da CIA Edward Snowden, exilado há seis anos na Rússia por revelar um esquema de vigilância em larga escala das autoridades dos Estados Unidos e vencedor do Prémio Nobel Alternativo em 2014.

Snowden lembrou que não foi uma decisão fácil, mas que não se arrependeu, mesmo que nenhum governo europeu o tenha protegido contra uma ordem de extradição do governo americano, onde enfrentaria um julgamento extraordinário e a possibilidade de prisão perpétua.

O diretor da fundação, Ole von Uexküll, lembrou que os prémios homenagearam 178 pessoas de 70 países, chamadas por ele de "ponta do iceberg dos movimentos sociais e motores da mudança". Por outro lado, admitiu temer a falta de ação global contra a crise climática.

Foi o seu pai, o ex-deputado sueco-alemão Jakob von Uexküll, que instituiu o prémio em 1980, um ano depois da Fundação Nobel ter rejeitado a sua ideia de um prémio ambiental e outro que promovesse o conhecimento nos países pobres.