EFELisboa

Milhares de artigos na sua própria versão da Wikipedia ou dezenas de blogues e centenas de entradas aprovam o interesse na rede pelo mirandês, uma língua co-oficial em Portugal, falada no noroeste do país, que esquiva há séculos o risco de desaparecer.

Considerada durante muito tempo como uma "língua casmurra" pela sua origem rural e a sua tradição exclusivamente oral, o orgulho pelo mirandês, alimentado após o seu reconhecimento como língua co-oficial de Portugal em 1999, conseguiu que os seus falantes teçam uma chamativa comunidade global na blogosfera e as redes sociais.

É o que acredita o linguista de origem mirandesa, José Pedro Ferreira, que, junto com o seu pai Amadeu, elaborou com carinho artesanal ao longo de quinze anos um dicionário deste idioma que verá a luz este mesmo ano, depois de mais de uma década disponível na rede para receber sugestões e aceitar modificações.

Ferreira, que trabalha no Instituto de linguística Teórica e Computacional (ILTEC) de Lisboa, explicou à Efe que o processo de consolidação da legislação do mirandês escrito, criada a partir do zero nas últimas duas décadas, foi anormalmente rápido e um exemplo único de desenvolvimento de um idioma graças à internet, onde comunidades de muitas dezenas de falantes comunicam em mirandês a cada dia.

Todo um êxito para uma língua que, segundo os cálculos mais otimistas, apenas é falada por 10.000 pessoas na região de Miranda, ao noroeste do país, onde a população é cada vez mais velha.

Por isso, apesar de que mais da metade das crianças da zona escolhem o idioma como disciplina estudantil optativa na escola, não haveria muitas razões para o otimismo respeito a sobrevivência desta língua se não fosse pelo seu inesperado auge na web.

"A razão é que os falantes de mirandês estão muito dispersos pelo mundo", explica Ferreira, em alusão aos vários emigrantes do noroeste de Portugal.

"Sem demora tiveram a ferramenta para o mirandês escrito (o acordo ortográfico de 1998), o meio (internet) e o público", graças ao interesse gerado após o reconhecimento como língua co-oficial, assinala.

Segundo Ferreira, a partir do acordo ortográfico -coordenada pela linguista Manuela Barros, de quem surgiu também a ideia para o primeiro site sobre o idioma-, muitas pessoas quiseram escrever em mirandês, "que será seguramente um dos idiomas com uma maior percentagem de autores publicados entre os seus falantes".

Um dos escritores mais prolíficos em mirandês é Amadeu Ferreira, pai de José Pedro, que publicou nesta língua romances, poesia, obras de teatro e inclusive traduziu os quase nove mil versos da grande obra épica portuguesa, "Os Lusíadas" (século XVI), o que se celebrou com uma leitura íntegra do texto entre mais de cem pessoas na pequena cidade de Sendín.

A família sentiu em primeira pessoa o auge do interesse mediático pelo idioma quando José Pedro pôs à sua filha um nome em mirandês, Lhuzie, algo inédito que o obrigou a fazer um pedido especial, finalmente aceite pelo registo português.

Em que situação encontrará ela o mirandês dentro de umas décadas? Para Ferreira, não faz sentido fazer previsões pois os linguistas pioneiros no estudo da "lhéngua", como Leite de Vasconcelos, vaticinaram já no século XIX que em menos de meio século desapareceria.

Mais de cem anos depois, em 1999, o mirandês era reconhecido como idioma oficial de Portugal no parlamento luso por unanimidade, um consenso incomum que, segundo Ferreira, só foi possível porque a língua "não está associada a uma reivindicação regional nem defensa da soberania".

Ao ser muito próximo ao asturiano-leonês, os falantes de mirandês têm "muitos e bons contatos" com a Academia da Llingua Asturiana, embora não ao nível de instituições até à criação no ano passado da Associação da Lhéngua Mirandesa.

Apesar de gozar de mais reconhecimento institucional que os seus parentes no outro lado da fronteira, os falantes do mirandês reivindicam a assinatura da Carta Europeia das Línguas Minoritárias por parte do Estado português.

Ferreira atribui o fato de que Portugal ainda não tenha aderido a este acordo ao "desinteresse" das autoridades lusas, e incide em que "não basta dizer que se é um país multilíngue, também é preciso enquadrar legalmente esse multilínguismo".

Mesmo assim, as iniciativas online de duas gerações de artesãos de palavras para proteger este património cultural estão multiplicando as possibilidades de sobrevivência desta língua.

Lucía Rodríguez