EFELisboa

A covid-19 e as restrições de mobilidade impostas para a combater afetaram o mercado da droga na Europa, onde aumentou o consumo de cannabis e benzodiazepinas em detrimento de outras substâncias, como a cocaína, e os traficantes aceleraram a sua adaptação ao mundo digital.

Esta é uma das principais conclusões dos efeitos do coronavírus no consumo de drogas recolhido pelo Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (EMCDDA, as suas siglas em inglês) no seu último relatório, apresentado esta terça-feira em Lisboa.

Apesar do documento expor as tendências de consumo apenas até finais de 2019, inclui alguns "estudos rápidos" sobre o que mudou durante os meses de primavera, nos quais foram impostos confinamentos na Europa para travar a expansão do vírus.

O impacto inicial nos padrões de consumo foi um "menor interesse no consumo de substâncias habituais em contextos sociais (por exemplo, a MDMA, mais conhecida como ecstasy, ou cocaína), mas um consumo aparentemente maior de outras substâncias em certos grupos (como por exemplo cannabis ou novas benzodiazepinas)".

Também subiu o consumo de drogas lícitas, como o álcool, expôs em conferência de imprensa o diretor do Observatório, Alexis Goosdeel, que salientou a necessidade de estudar a situação nos próximos meses para saber se são alterações permanentes.

Em qualquer caso, considera que a pandemia "contribuiu a exaltar a transformação do mercado de drogas", que face às restrições de mobilidade e a consequente impossibilidade de vender na rua se lançou de forma definitiva à sua transformação digital.

Especialmente através da chamada "darknet", a parte obscura da internet, onde foram impulsionadas "as plataformas das redes sociais, assim como serviços de distribuição e entrega ao domicílio".

Mas o negócio retalhista não foi o único que se renovou, também o grossista, ou seja, os grandes envios de droga dos grupos de crime organizado, que demonstraram ser "sumamente resilientes", em palavras de Goosdeel.

Houve menos tráfico por transporte aéreo de passageiros, outra atividade fortemente afetada pela covid, mas o tráfico por via marítima manteve-se "nos níveis anteriores à pandemia", aponta o Observatório.

Também não há grandes mudanças na produção de drogas sintéticas e no cultivo de cannabis na Europa.

O consumidor, por sua vez, também viveu as suas próprias mudanças.

Por um lado, contou com um menor apoio nas primeira semanas por parte dos serviços de atenção e apoio a toxicodependentes, que se viram "gravemente alterados", com encerramentos ou redução de serviços "muito importantes", explicou Goosdeel.

A situação foi em parte resolvida com soluções criativas como a "telemedicina", que o diretor do Observatório considera que abre a porta a novas formas de trabalhar com pessoas que consomem drogas.

Mas ao lado de soluções novas chegam também desafios novos com a covid para os consumidores de drogas

Por exemplo, o risco de infeção. Apesar de Goosdeel ter ressaltado que ainda não dispõe de dados para chegar a conclusões definitivas, o relatório destaca que podem enfrentar mais possibilidade de contágio com a partilha de substâncias ou preparação das mesmas.

"O que podemos imaginar são as suas vulnerabilidades de saúde, e isso coloca-os expostos a um maior risco" em caso de contágio, explicou.

Sem esquecer que a crise económica causada pelo coronavírus representa "um potencial risco" acrescentado.

"À medida que as repercussões económicas da crise se fazem sentir, algumas pessoas das nossas comunidades podem tornar-se mais vulneráveis aos problemas de drogas e à participação no mercado de drogas", afirma o diretor do Observatório.

Desafios que deverão ser observados nos próximos meses e que se juntam aos já detetados em finais de 2019, como uma maior apreensão de envios de grandes quantidades de cocaína, resina de cannabis e, cada vez mais, heroína transportadas por mar.

Com esta última houve um destacado aumento de mortes por overdose em maiores de 50 anos, que cresceram 75% nos últimos seis anos.