EFELisboa

Em 2017, os incêndios causaram a morte de mais de uma centena de pessoas e arrasaram 440.000 hectares em Portugal. Agora, madeira queimada nesses fogos foram tornadas em móveis de exposição para alertar sobre uma tragédia ambiental que continua a destruir anualmente as florestas portuguesas.

"Mais que uma coleção, é um pedido de socorro das nossas florestas". É a mensagem que, sobre uma imagem em chamas, encerra a exposição "Pyros Collection", um conjunto de peças de mobiliário desenhadas pelo arquiteto português Nuno Lacerda que acaba de abrir as suas portas no espaço lisboeta Coletivo 284.

Organizada pela Associação Natureza Portugal (ANP), em colaboração com a WWF, a exposição procura tocar consciências e recordar que o problema dos incêndios encontra-se longe de estar resolvido.

UMA IDEIA: COMOVER

A ideia, que partiu da agência publicitária FCB Lisboa, era "comover as pessoas para que estas tragédias não se repitam", conta à EFE a diretora-executiva da ANP/WWF, Ângela Morgado, que considera que "ninguém fica indiferente ao ver a exposição".

O espaço está desenhado para tal: uma sala banhada em obscuridade onde os únicos pontos de luz recaem sobre as peças de mobiliários, que revelam a destruição do fogo.

A exposição é integrada por bancos feitos com troncos tocados pelas chamas, mesas em que se ainda pode ver a cinza e cadeiras com a metade superior intacta e a inferior carbonizada para mostrar o efeito devastador do fogo.

"Devastio" (devastação) é precisamente o nome de uma das peças, uma mesa formada por estreitas tábuas de madeira carbonizada que literalmente a tornam inutilizável: "sem vida, sem utilidade e sem esperança", reza a legenda que a acompanha.

Todos os móveis têm nomes em latim que evocam o fogo e as suas consequências, como "lacrimae" (lágrima), "flamma" (chama), "carbo" (carvão) ou "mortem" (morte).

UM PAÍS QUE SOFREU

Portugal conhece muito bem a relação entre os incêndios e a morte: há três anos faleceram mais de uma centena de pessoas em duas tragédias florestais, um dado sem comparação no país.

Às perdas humanas juntaram-se os danos ambientais, com centenas de milhares de hectares queimados em zonas do país que, nos verões seguintes, voltaram a arder.

Como tal, os organizadores quiseram alertar as autoridades com este pedido de socorro que, embora tenham sido dados passos, o problema ainda está por resolver.

"A partir de 2017 o Estado português disse que a conversão florestal do país e a reordenação da paisagem era uma prioridade. E acredito que tem que ser assim. A prioridade existe, foram criados observatórios, comissões de trabalho, instituições para criar esta nova floresta", explica Morgado.

MUITO TRABALHO PELA FRENTE

Mas, ao ser parecer, falta ainda algo que o Governo começou a fazer mas no qual tem que investir mais: "processos participativos com todos os atores, porque existem proprietários, ONGs de ambiente e de desenvolvimento local, todos eles com intervenção na terra e na floresta".

Os responsáveis da ANP/WWF consideram que é necessário reforçar a prevenção, com uma gestão florestal sustentável, que permita estabelecer "paisagens mosaico" que combinem diferentes atividades, como florestas, agricultura e pasto para gado.

"Quanto mais diversas sejam as atividades num determinado lugar, mais resiliente ao fogo essa paisagem se torna", recorda a diretora-executiva da organização.

Nas zonas que arderam, é também importante que a recuperação se baseie nessas paisagens mosaico.

Para recordar ao Governo estes "deveres pendentes", uma das peças da coleção foi oferecida ao ministro do Ambiente e Ação Climática, João Matos Fernandes. Outra será enviada ao primeiro-ministro, António Costa.

ARTE PARA A AÇÃO AMBIENTAL

Todas as propostas da ANP/WWF estão recolhidas nos diversos relatórios que a organização realiza anualmente sobre os incêndios florestais, mas desta vez quiseram também recorrer a outra forma de alerta mais criativa: a arte.

"A arte e a cultura têm a ver com o ambiente e o património. Não nos podemos esquecer de que há muita arte inspirada na natureza", assinala Morgado.

E felizmente, a consciência social sobre a importância de cuidar da natureza cresceu nos últimos tempos.

"Todo o mundo, agora ainda mais, com o que se fala das questões da pandemia e a saúde humana, reconhece finalmente que a natureza é a base de tudo e que é muito importante para o nosso bem-estar mental e para a nossa vida", diz.

Por Paula Fernández