EFELisboa

Quarenta e cinco anos depois da revolução que acabou com a sua ditadura, António de Oliveira Salazar ressurge em Portugal com o projeto de um museu na sua cidade natal que, advertem ex-presos políticos e outros cidadãos, servirá para "endeusar" a quem os lusos acreditavam já estar num esquecimento permanente.

A polémica ideia parte da Câmara Municipal de Santa Comba Dão (centro), ao qual pertence a aldeia de Vimieiro, onde nasceu o ditador, e está impulsionada, para surpresa de grande parte da sociedade, por um autarca socialista, Leonel Gouveia.

"Será um lugar para o estudo da história do Estado Novo. Não um santuário destinado a nacionalistas nem um museu onde se vai 'demonizar' o estadista de Santa Comba Dão", disse Gouveia em alusão a Salazar.

Umas declarações que causaram polémica por definir simplesmente como "estadista" quem dirigiu a ditadura mais longa da Europa e porque, apesar de ressaltar que a iniciativa será dedicada ao Estado Novo, a estrutura através da qual exerceu o poder, muitos consideram que na realidade procura branquear o seu líder.

Sobretudo após ouvir o autarca dizer que não se vai "demonizar" Salazar.

Por enquanto levantaram a voz duas centenas de ex-presos políticos da ditadura, acabada em 1974, e outros 5.600 cidadãos que pediram ao Governo do socialista António Costa que trave o projeto do seu colega de partido.

Fazem-no em declarações públicas que ganham adeptos a cada hora que passa e nos quais se adverte que o museu, que se pretende abrir no final do verão, "configura-se como um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista e um centro de peregrinação para os nostálgicos".

Uma opinião com a qual coincide a escritora Lídia Jorge, autora de alguns dos romances que refletem a vida nos finais da ditadura salazarista e na célebre Revolução dos Cravos.

A iniciativa, diz à Efe, "choca porque pensávamos que a nossa ditadura foi tão prolongada, e tão intensa, e deixou-nos tão mal, que não voltaria a criar-se nostalgia de Salazar".

Agora, considera que o "clima internacional" propiciou que surjam propostas como a do museu, que demonstra além disso, segundo a sua opinião, que os portugueses não enfrentaram "a memória do ditador".

"(O país) ainda não tinha enfrentado a memória do ditador. Estava em banho maria, adormecido, e agora há um movimento para retomá-lo, do qual o museu é apenas um dos aspetos mais visíveis", defende.

Segundo a imprensa portuguesa, o museu vai estar localizado na antiga "escola-cantina Salazar", junto à casa do ditador em Vimieiro, propriedade da Câmara Municipal, à semelhança da casa onde nasceu, a adega e a quinta que lhe pertenceram em vida.

O plano seria instalar neste recinto "conteúdos multimédia e interativos", e apresenta-se como uma espécie de oportunidade económica para revitalizar Santa Comba Dão.

Para Jorge, é "bastante extraordinário" que uma proposta destas surja de um autarca socialista, algo que "diminui a imagem dos socialistas em Portugal".

"E significa outra coisa: que o populismo atravessa todos os partidos, e este é um movimento populista de um autarca socialista que pensa que a sua cidade vai chamar turistas, e não vê as consequências políticas, culturais, sociais... Só quer colocar a sua Câmara Municipal no mapa", lamenta.

E explode quando lembra as declarações sobre não "demonizar" Salazar.

"Não quer demonizar? O que significa isso? Não pode demonizar alguém que durante 40 anos amordaçou um país, o isolou, o deixou na miséria? É incrível que um autarca socialista tenha dito isto", conclui.

Salazar foi o continuador do regime militar que foi liderado em 1926 pelo marechal António Carmona, que depôs Sidónio Pais.

Foi primeiro-ministro entre 1932 e 1968, quando graves problemas de saúde o obrigaram a deixar o poder, tendo sido substituído por Marcello Caetano, que caiu com a revolução dos cravos em abril de 1974.

Com a sua morte em 1970 foi enterrado em Vimieiro, onde na sua campa se lê: "O melhor estadista até ao momento e o mais honesto dos governantes de Portugal".

Cynthia de Benito