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Há décadas talvez houvesse debate, mas já não. Agora o consenso é total: mais de 99,9% dos artigos científicos concluem que as alterações climáticas foram provocadas pela ação humana.

Algo dito por mais de 88.125 estudos científicos relacionados com o clima, investigações revistas por pares e publicadas entre 2012 e novembro de 2020 que acabam de ser analisadas por uma equipa de investigadores da Universidade de Cornell, Nova Iorque.

A investigação, publicada esta terça-feira na revista Environmental Research Letters, atualiza um trabalho similar de 2013 que revelava que 97% dos estudos publicados entre 1991 e 2012 apoiavam a ideia de que a atividade humana está a alterar o clima da Terra.

O novo estudo pretendia averiguar se este consenso científico mudou.

"O consenso passa já os 99%. Está praticamente fechado qualquer debate público significativo sobre a realidade das alterações climáticas provocadas pelo homem", afirma Mark Lynas, investigador em Cornell e principal autor do estudo.

Porém, apesar deste enorme consenso, parte da opinião pública e alguns políticos e representantes públicos continuam a repetir que ainda há debate entre os cientistas sobre qual é a verdadeira causa das alterações climáticas.

O Centro de Investigação Pew (Washington D.C.) revelou em 2016 que apenas 27% dos adultos americanos acreditava que "quase todos" os cientistas estavam de acordo que as alterações climáticas se devem à atividade humana.

Cinco anos mais tarde, uma sondagem da Gallup advertia para uma profunda e crescente divisão partidária na política americana sobre se o aumento das temperaturas observadas na Terra desde a Revolução Industrial foi provocado pelo ser humano.

"Para entender se existe um consenso, há que o quantificar. Isso significa examinar a bibliografia de forma coerente e não arbitrária para evitar o intercâmbio de artigos escolhidos, que é frequentemente a forma como estas discussões são conduzidas na esfera pública", denuncia Lynas.

Os autores examinaram uma amostra aleatória de 3.000 estudos do conjunto de dados de 88.125 artigos sobre o clima em inglês publicados entre 2012 e 2020 e descobriram que apenas quatro dos 3.000 trabalhos eram céticos com a ideia de que as alterações climáticas foram causadas pelo homem.

"Sabíamos que [os artigos céticos sobre o clima] eram muito escassos, mas pensamos que devia haver mais nos 88.000", disse Lynas.

Simon Perry, engenheiro de software, voluntário da Aliança pela Ciência e coautor do estudo, criou um algoritmo que procura palavras-chave nos artigos que a equipa sabia que eram céticos, como "solar", "raios cósmicos" e "ciclos naturais". O algoritmo foi aplicado aos mais de 88.000 artigos.

A pesquisa encontrou 28 artigos implícita ou explicitamente céticos, todos publicados em revistas menores.

Se o resultado de 97% do estudo de 2013 deixava algumas dúvidas sobre o consenso científico acerca da influência humana no clima, "estes resultados dissipam qualquer incerteza. Este estudo devia ser a última palavra", afirma Lynas.

Para Benjamin Houlton, decano da Faculdade de Agricultura e Ciências da Vida de Cornell e coautor do estudo, "é fundamental reconhecer o papel principal das emissões de gases de efeito de estufa para poder mobilizar rapidamente novas soluções, pois estamos já a ser testemunhas em tempo real dos devastadores impactos dos desastres relacionados com o clima nas empresas, pessoas e na economia".