EFELisboa

Desde embalagens inteligentes e verdes que reduzem a dependência do petróleo a alimentos personalizados para se manter saudável, a nanotecnologia e os materiais avançados têm infinitas aplicações que são fundamentais para a transição verde e digital da Europa.

Esta é a principal mensagem da atual edição do EuroNanoForum, um congresso que este ano se realiza integralmente de forma digital mas com sede na cidade portuguesa de Braga, lar de um dos organizadores, o Laboratório Ibérico de Nanotecnologia (INL).

Mais de 2.700 pessoas de 140 países participam no evento, quatro vezes mais do que o habitual, num momento decisivo tanto por causa da pandemia como dos desafios que se avizinham para esta década, principalmente as alterações climáticas e a digitalização.

E aí, a nanotecnologia e os materiais avançados têm um papel crucial a desempenhar.

"São a chave para o futuro e para colocar novos produtos e serviços no mercado, o que tornará possível enfrentar e mitigar os desafios que temos pela frente", disse à EFE o diretor do INL, o físico sueco Lars Montelius.

Esta entidade transfronteiriça, nascida de um acordo entre os governos de Portugal e Espanha, está há mais de dez anos a investigar materiais, como se comportam e como podem ser utilizados para mudar a sociedade.

IMPULSO EUROPEU

A importância da nanotecnologia e dos materiais é clara não só para os investigadores, mas também para a Comissão Europeia. "São instrumentos poderosos para alcançar os nossos ambiciosos objetivos", disse a Comissária Europeia para a Inovação e Investigação, Mariya Gabriel, durante a abertura do fórum.

Gabriel defendeu que estes podem "marcar um antes e um depois" para conseguir, por exemplo, o tão esperado objetivo de neutralidade de carbono na UE em 2050.

Por isso, nos últimos sete anos, o bloco investiu 1.750 milhões de euros em investigação e inovação sobre materiais avançados e já planeou outros 450 milhões no início do novo programa Horizonte Europa para estas áreas de trabalho.

De acordo com o diretor do INL, é importante acrescentar o setor privado a este financiamento público.

"Não podem ser apenas os contribuintes a pagar pelo desenvolvimento, mas também as empresas privadas que irão depois vender os produtos resultantes da investigação", assinala Montelius.

O INL é financiado por contribuições dos Estados-membros, fundos comunitários tais como os Feder do Programa de Cooperação Transfronteiriça Interrreg Espanha-Portugal (POCTEP) e contribuições da indústria. O seu diretor é partidário de uma visão "holística" que também integre a sociedade, que será quem irá acabar por beneficiar dos avanços.

APLICAÇÕES INFINITAS

Avanços que chegam e irão chegar em todos os setores da sociedade, porque as aplicações da nanotecnologia são infinitas.

O fórum aborda campos tais como mobilidade sustentável, saúde, espaço, energia verde ou economia circular. Os cerca de 400 investigadores do INL estão a trabalhar em projetos relacionados com vários deles.

"Estamos a trabalhar na substituição de embalagens plásticas de alimentos por algo que seja verde. E serão também embalagens inteligentes, que nos permitirá saber se os alimentos ainda estão próprios para consumo", explica Montelius a título de exemplo.

Este projeto irá reduzir a dependência de setores insustentáveis, tais como o petróleo, e também combater o desperdício alimentar. "Cerca de um terço da comida produzida atualmente é desperdiçada", recorda o físico.

Também está a ser investigado como produzir alimentos mais nutritivos e adaptados ao que o corpo de cada consumidor necessita, o que também teria um grande impacto nos sistemas de saúde.

"Em vez de tentarmos tratar pessoas doentes, tratamos pessoas saudáveis para as manter saudáveis", diz Montelius.

O INL lidera também o projeto luso-espanhol "Nanoeaters", financiado pelo POCTEP, que desenvolve dispositivos nanofluídicos que podem ser utilizados, entre muitas outras aplicações, para realizar testes PCRs nos quais será suficiente soprar ou modificar as cores no setor alimentar sem recorrer a corantes.

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

Apesar de ser uma entidade luso-espanhola, o INL emprega investigadores oriundos de mais de 40 países.

"É realmente uma verdadeira organização intergovernamental e internacional e podemos trabalhar em todo o mundo", conta o seu diretor, que considera "absolutamente essencial" a cooperação entre países no campo da investigação.

Lisboa e Madrid "entenderam rápido" a importância que essa cooperação tem quando decidiram promover de forma conjunta um centro de referência de caráter governamental que ultrapasse fronteiras, considera. No final, "a investigação é global".

Por Paula Fernández